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Uma mudança de paradigma para pais e mães de crianças em Escolas Sudbury

March 20, 2017

 Fonte: acervo Sudbury Valley School

 

Uma mudança de paradigma para pais e mães de crianças em Escolas Sudbury

 

Alan White

 

Tradução de Luís Gustavo Guadalupe Silveira, com autorização da Sudbury Valley School (http://sudburyvalleyschool.org/)

Disponível em: http://www.sudval.com/essays/022011.shtml

 

Crescemos assumindo certos pressupostos, que se originam em nossa cultura. Nos baseamos nesses pressupostos para formar nossa visão sobre como o mundo funciona. Muitos se corrigem sozinhos graças a novas informações. Mas alguns desses pressupostos são tão obviamente verdadeiros, são fortemente parte de nossa cultura, de quem nós somos, que precisamos fazer um grande esforço para questioná-los. Essa é uma das principais razões pela qual seguimos a religião de nossos pais, porque somos patriotas, porque somos politicamente conservadores ou liberais.

 

Quais seriam as consequências de uma troca de recém-nascidos na maternidade de um hospital? Vamos supor que os bebês sejam dados aos pais errados e que este hospital seja em Jerusalém, e que tenha tanto judeus quanto palestinos como clientes. E se o hospital fosse em Halifax, Nova Escócia, e uma família conservadora protestante levasse para casa um bebê cuja família biológica fosse católica liberal? Que pressupostos essas crianças iriam ter, ao crescer na família “errada”?

 

Quais são os pressupostos assumidos pela grande maioria das pessoas em meu país ou no seu a respeito da educação? Deixe-me listar alguns com as quais cresci:

 

Quanto mais aulas eu assistisse, mais educado eu seria. É assistindo aulas que se aprende.

Meus pais e meus professores sabiam o que era melhor para mim.

Quanto mais cedo você começasse a realizar uma atividade, mais habilidoso você se tornaria.

Provas medem o grau de domínio que você adquiriu em um assunto qualquer.

A brincadeira é a recompensa quando o trabalho está concluído: brincar em vez de trabalhar era ser fútil e irresponsável.

Conversar em aula, a menos que fosse para responder uma pergunta do professor, prejudicava a sua capacidade de aprender e a capacidade do professor de ensinar.

Há pré-requisitos que devem ser cursados para que você seja capaz de fazer trabalhos de nível universitário.

O programa educacional que especialistas elaboram para as crianças visa ao bem das crianças e da sociedade.

 

A mudança de paradigma que fiz foi resultado do abandono de cada um desses pressupostos que listei acima. Foi muito difícil e levou anos de dura autoanálise. Isso é verdade, por um lado, porque uma mudança de paradigma é sempre muito difícil e, por outro, porque eu tive uma carreira bem-sucedida na educação pública, que foi baseada nessas suposições que listei.

 

Foi minha experiência na Sudbury Valley School que lenta, mas consistentemente, me levou a abandonar cada um daqueles pressupostos.

 

Caso você pretenda ser um pai ou uma mãe que apoia uma criança matriculada numa escola que pratica o modelo Sudbury, você também terá que reexaminar suas crenças para descobrir se elas estão ou não em conflito com esse modelo. Como pai ou mãe, você é a pessoa mais influente na vida de sua criança. Caso você seja incapaz de realizar essa mudança crucial de paradigma, você irá arruinar as tentativas de sua criança usar a liberdade concedida a ela numa escola Sudbury, enquanto ela tenta descobrir o que é necessário para se tornar um adulto bem-sucedido no século XXI.

 

Estamos passando por uma grande transformação, de uma sociedade industrial para uma sociedade baseada na informação. Como pais e mães, vocês estão no meio dessa transição com um pé no passado e um no presente. Sua criança tem um pé no presente e outro no futuro. Quando ela tiver a minha idade, três quartos do século XXI terão se passado. Os especialistas que estão dirigindo o programa educacional das crianças na educação tradicional estarão ultrapassados. O modelo de educação que eles promovem é um modelo pensado para a sociedade industrial, totalmente obsoleto.

 

Por um lado, mudar um paradigma é muito difícil, mas há uma ampla literatura que abordou as perguntas que todo pai e toda mãe responsável terá que fazer, caso estejam considerando mandar uma criança para uma escola Sudbury. Isso irá aumentar sua confiança enquanto lutam contra a ansiedade de sua decisão de ir contra a pretensa sabedoria da maioria. A literatura trata de questões educacionais no contexto das nossas condições históricas, econômicas e sociais. É uma jornada fascinante e útil caso você venha a dar o suporte necessário à sua criança para que ela assuma realmente a ideia de que está no comando de sua própria vida e é responsável por sua própria educação. Uma escola Sudbury é mais eficiente se cada criança tiver o apoio e a compreensão de seus pais e mães.

 

Levou quase dez anos para que eu me convencesse de que o modelo Sudbury era apropriado para essa época do nosso desenvolvimento socioeconômico. Sou uma geração mais velho do que a maioria de vocês e ainda não tenho a vantagem dos trinta e quatro anos de experiência concretizada no modelo da Sudbury Valley School.1

 

O que há na experiência Sudbury que me levou a abandonar as suposições que eu listei no começo do texto? A primeira vez que eu ouvi falar sobre o modelo foi em 1966, quando a escola começava a ser planejada. Na época, eu era um diretor do Ensino Fundamental e havia sido pioneiro em muitas das inovações que buscavam melhorar a educação. Foi um período empolgante e havia muitos professores universitários brilhantes e articulados desenvolvendo programas em matemática, ciências e ciências sociais, elaborando estratégias organizacionais como instrução programada, ensino e aprendizagem em equipe. Por volta de 1967, eu estava cada vez ciente de que esses programas funcionavam razoavelmente bem para mais ou menos um quarto da população escolar, mas eram muito perturbadores e ineficazes para a maioria dos estudantes. Além disso, mesmo os estudantes bem-sucedidos tinham que ser coagidos ou subornados para aprender o que os especialistas haviam escolhido para eles. Isso ia contra a compreensão que eu tinha dos ideais de uma democracia. Liberdade e coerção são contraditórias e numa sociedade livre elas têm que ser examinadas e reexaminadas sempre que aparecerem juntas.

 

O modelo Sudbury foi baseado numa visão da natureza humana que acredita que as crianças querem se tornar adultos bem-sucedidos e responsáveis. Essa visão também acredita que os processos evolutivos prepararam as crianças para serem eficazes solucionadoras de problemas. A maioria das pessoas que observaram crianças em idade pré-escolar viu que crianças pequenas solucionam alguns dos desafios mais difíceis da vida. A maioria dos educadores que conheço também reconheceu que a automotivação é de longe o ingrediente mais poderoso da aprendizagem. O experimento do modelo Sudbury criou um laboratório para testar a validade dessas proposições. Caso a leitura, a escrita e a aritmética forem mesmo habilidades essenciais, as crianças deveriam reconhecer esse fato e, mais cedo ou mais tarde, aprenderiam essas habilidades. Crianças imersas em nossa cultura deveriam, por conta própria, perceberiam essas disciplinas que nossa sociedade valoriza tanto e iriam escolher os aspectos culturais que elas desejam buscar.

 

Quando o experimento foi proposto pela primeira vez, a maioria das pessoas achou que era um sonho utópico. Felizmente, algumas poucas almas corajosas tiveram a bravura e a visão necessárias para buscar esse sonho tão coerente com os ideais de nossa herança inglesa. De minha parte, eu desejava que desse certo, mas estava preparado para o fracasso. Mas ainda que fosse um fracasso, eu sentia que iríamos aprender muita coisa valiosa.

 

Os pressupostos colocados à prova possuem raízes profundas no solo de nossa herança cultural. Aristóteles observou, mais de dois mil anos atrás, que os seres humanos são naturalmente curiosos e observadores. Muito antes de haver escolas, nos longínquos tempos de nossa pré-história, nossa espécie sobreviveu e floresceu pois as crianças buscavam se tornar adultos bem-sucedidos. Antes da Revolução Industrial e das escolas a que ela deu origem, as crianças adquiriam conhecimento sendo aprendizes de trabalhadores profissionais. As crianças observavam, ouviam, faziam perguntas, usavam as brincadeiras para simular os papéis dos adultos, e aos poucos descobriam o que precisavam fazer para sobreviver e se tornar membros úteis em suas famílias e comunidades.

 

Por que os fundadores da Sudbury Valley estavam tão convencidos de que o modelo educacional predominante em meados dos anos 1960 não se encaixava na realidade do nosso país? Não era apenas inadequado, como também estava causando grande dano pois nós não estávamos mais nos preparando para uma sociedade industrial. Em todas as democracias ocidentais, os computadores e a comunicação estavam transformando a sociedade. Estávamos entrando na Era da Informação. Escolas que haviam nos servido no período industrial se tornaram contraprodutivas na Era da Informação. Os fundadores da Sudbury Valley não estavam sozinhos em sua percepção sobre as mudanças que estavam acontecendo, mas estavam sozinhos ao reconhecerem que as escolas tradicionais não poderiam ser modificadas para enfrentar os novos desafios. Essas escolas deveriam ser completamente descartadas e substituídas por um novo modelo educacional.

 

Quando disse que não estávamos sozinhos é porque havia escritores respeitados que também estavam expressando suas preocupações. Cito, por exemplo, Albert North Whitehead, professor de Filosofia em Harvard nos anos 1920, e matemático mundialmente famoso, em seu livro Os Fins da Educação: “Agora defendo que o princípio do progresso é interno: a descoberta é feita por nós mesmos, a disciplina é autodisciplina e a realização é resultado de nossa própria iniciativa.” Outra citação de Whitehead, do mesmo livro: “A base para o crescimento das invenções modernas é a ciência, e a ciência é quase inteiramente fruto da agradável curiosidade intelectual.”

 

Albert Einstein, contemporâneo de Whitehead, disse:

 

“É mesmo um milagre que os métodos modernos de instrução não tenham ainda destruído completamente a sagrada curiosidade da investigação; pois essa plantinha delicada precisa mais de liberdade do que de estimulação; sem liberdade, ela certamente perece. É um grave erro pensar que a alegria de observar e investigar possa ser promovida por meio de coerção e de um senso de dever.”

 

Ralph Waldo Emerson escreveu, em meados do século XIX: “O segredo da educação está no respeito ao pupilo.” Esse segredo era central para o modelo Sudbury de educação.

 

As escolas tradicionais foram necessárias para se obter os benefícios da industrialização. Alvin Toffler, em seu livro A Terceira Onda, é bastante profundo:

 

“À medida que o trabalho saiu dos campos e da residência, aliás, as crianças tiveram que ser preparadas para a vida na fábrica. Os primeiros donos de minas, manufaturas e fábricas da Inglaterra industrializada descobriram, como Andrew Ure escrever em 1835, que era ‘praticamente impossível converter pessoas depois da puberdade, seja advindas de ocupações rurais ou artesanais, em operários competentes.’ Adequar os jovens ao sistema industrial iria resolver os problemas disciplinares da indústria futuramente. O resultado foi outra estrutura central das sociedades da Segunda Onda: educação em massa.

Baseada no modelo industrial, a educação em massa ensinava o básico de leitura, escrita e aritmética, um pouco de história e outros assuntos. Esse era o ‘currículo explícito’. Mas, embaixo dele havia um ‘currículo oculto’ que era ainda mais básico. Ele consistia – e ainda continua assim na maioria das nações industrializadas – de três cursos: pontualidade, obediência e trabalho repetitivo. O trabalho da indústria precisava de operários que aparecessem na hora certa, especialmente os da linha de produção. Esse trabalho requeria operários que recebessem ordens de uma hierarquia administrativa sem questionar. Requeria homens e mulheres preparados para se submeter às máquinas ou aos escritórios, aptos a realizar operações brutalmente repetitivas.”

 

Esse modelo de educação é contraproducente na Era da Informação.

 

O que estava acontecendo na Sudbury Valley School me forçou a abandonar meus pressupostos:

Há pré-requisitos que devem ser cursados para que você seja capaz de fazer trabalhos de nível universitário.

Quanto mais aulas eu assistisse, mais educado eu seria. É assistindo aulas que se aprende.

 

Alguns dos primeiros estudantes matriculados haviam se transferido na metade do ensino médio. Eles mergulharam de cabeça na liberdade disponível na Sudbury Valley e não fizeram nenhum desses cursos que são considerados pré-requisitos para um trabalho de nível universitário. Duas coisas que aconteceram me deixaram surpreso. Primeiro, os estudantes conseguiram entrar em Universidades prestigiadas. Segundo, foram capazes de competir com sucesso contra estudantes que haviam seguido o currículo tradicional. Esse fenômeno continuou acontecendo e agora temos formandos que nunca estiveram em outra escola. Havia pouco interesse em fazer aulas como forma de aprender e quando isso acontecia era por parte de estudantes que acreditavam (como a grande maioria dos adultos) que aulas são a estrada principal para a aprendizagem. Contudo, aqueles estudantes foram admitidos nas faculdades e se tornaram capazes de realizar trabalhos de nível universitário. Além disso, aqueles que escolheram não seguir para o ensino superior descobriram outros caminhos para ser cidadãos produtivos e responsáveis na Era da Informação. Eles não foram estigmatizados como pessoas intelectualmente incapazes, o que de fato não eram.

 

Provas medem o grau de domínio que você adquiriu em um assunto qualquer.

Como aulas nunca foram populares na Sudbury Valley, nunca foram dadas notas ou exigiram-se provas. O grau de domínio era uma avaliação subjetiva feita pelos estudantes quando estavam satisfeitos com o que haviam realizado.

 

A brincadeira é a recompensa quando o trabalho está concluído: brincar em vez de trabalhar era ser fútil e irresponsável.

Conversar em aula, a menos que fosse para responder uma pergunta do professor, prejudicava a sua capacidade de aprender e a capacidade do professor de ensinar.

Graças às muitas visitas que fiz à escola e às várias conversas que tive com membros da equipe, concluí que os estudantes passavam a maior parte do tempo em diferentes tipos de brincadeiras e conversando muito uns com os outros e com a equipe. Uma sociedade industrial tinha que desvalorizar a brincadeira para condicionar as crianças a se conformar ao mundo “real”. Uma sociedade da informação tem que encorajar a brincadeira pois essa é a maneira das crianças simularem o mundo “real”. Para uma maravilhosa explicação sobre a importância da brincadeira, leia o capítulo de mesmo título no livro Worlds in Creation, de Daniel Greenberg, publicado pela Sudbury Valley Press. Para uma compreensão mais profunda sobre a importância da conversação, leia Children and Grownups, outro capítulo do mesmo livro.

 

Meus pais e meus professores sabiam o que era melhor para mim.

É imprescindível para experienciar a Sudbury Valley que as crianças decidam o que querem aprender e quando irão aprender. O único planejamento que elas seguem é aquele que elas escolhem para si mesmas. De que outra forma você sentirá que está no controle de sua própria vida, de que outra forma você poderá ser realmente responsável, poderá aprender a confiar em si mesmo, poderá ser intelectualmente independente?

 

Quanto mais cedo você começasse a realizar uma atividade, mais habilidoso você se tornaria.

Na Sudbury Valley, a idade em que as crianças decidiam que ler é uma habilidade essencial em nossa cultura variava muito. Uma vez que tomavam essa decisão, aprendiam a ler em questão de meses. Compare isso aos sete anos gastos pelas crianças que ficavam sob meus cuidados como diretor de uma escola de ensino fundamental. Levava anos e ainda restavam 20% que precisavam de ajuda extra quando chegavam ao Ensino Médio. Na Sudbury, começar cedo não parecia dar nenhuma vantagem. Por que isso deveria nos surpreender? Liberdade e ausência de coerção são essenciais para uma democracia.

 

Com pouquíssimas exceções, todas as crianças pequenas aprendem a falar, o que é muito mais difícil do que aprender a ler. Novamente, vale citar Whitehead, em seu Os Fins da Educação: “A primeira tarefa intelectual que se coloca diante de uma criança é a aquisição da língua falada. Que tarefa espantosa, correlacionar sons e significados. Ela requer a análise de ideias e de sons. Todos sabemos que uma criança faz isso, e o milagre dessa conquista é passível de explicação. Todos os milagres podem ser explicados, mas para o sábio eles continuam sendo milagres.”

 

E por último, mas não menos importante:

 

O programa educacional que especialistas elaboram para as crianças visa ao bem das crianças e da sociedade.

Não vou questionar os motivos, mas os resultados irão prejudicar as crianças dessa era que está mudando radicalmente as nossas vidas. Novamente, cito Whitehead: “A cultura é atividade do pensamento, abertura para o belo e sentimentos humanos. Fragmentos de informação não tem nada a ver com isso. Um homem apenas bem informado é a coisa mais inútil desse mundo de Deus.”

 

Quero encerrar citando um dos fundadores da Sudbury Valley School, Hanna Greenberg. Esta citação vem do seu “Porque um Currículo é Contraprodutivo”,[2] presente em Reflections on the Sudbury School Concept, publicado pela Sudbury Valley School Press, editado por Mimsy Sadofsky e Daniel Greenberg: “Fico espantada que as qualidades que apreciamos em nós mesmos e em nossos amigos – sermos interessantes, perspicazes, criativos e independentes – é o que desejamos sacrificar nas crianças em troca da aquisição de um conhecimento que alguns de nós julgamos ser necessário aprender.”

 

NOTAS

 

1 - Este texto foi publicado originalmente no The Sudbury Valley School Journal, v. 32, n. 2, Nov, 2002, p. 24-32. (N.T.)

 

2 - O texto citado pode ser lido na coletânea Outra Escola é Possível, disponível para download em https://www.comunidadecasadaarvore.org/. (N.T.)

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