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A magia da conversação - parte 3

December 15, 2016

 Imagem: acervo Casa da Árvore

 

A magia da conversação – parte 3[1]

 

Michael Greenberg

 

Disponível em: http://www.sudval.com/essays/022008.shtml

 

Tradução de Luís Gustavo Guadalupe Silveira

 

Todos sabem falar:  mesmo os bebês sabem falar.  Mas falar e conversar são duas coisas muito diferentes, e nosso nível de habilidade nessas atividades é importantíssimo.  Por habilidade eu não quero dizer necessariamente vocabulário, ainda que o vocabulário certamente seja parte dela.  É mais como um vocabulário de conceitos, mais que um vocabulário de palavras.  É saber como argumentar, como dizer as coisas de maneira que façam sentido para outras pessoas e então perceber o que as pessoas estão dizendo e poder construir para elas o quadro geral do momento, uma ponte de volta para elas:  "Bem, eu entendo o que você está dizendo, mas que tal isto?"  A conversa requer todas as ferramentas da escrita no sentido de que você precisa ser capaz de usar analogias e metáforas, de um jeito real, pois é falando que as pessoas se explicam: "É tipo isso", ou "É tipo quando o ovo vira galinha."  As pessoas têm que ser capazes de usar formas expressivas como essas e de pensar sobre elas.  Orwell tem toda uma maneira de definir que as verdadeiras analogias e metáforas são as mais frescas; que as analogias e metáforas que se tornaram mercadorias perdem sua força própria, e muitas delas ficam tão distantes que as pessoas esquecem qual é qual.  Por exemplo, as pessoas falam sobre estar "entre o malho e a bigorna", mas esqueceram que no contexto original é sempre o malho que se parte, não a bigorna.  As pessoas acham que a bigorna leva a pior porque não pensam o suficiente sobre a imagem.  Você pode dizer "É melhor batermos enquanto o metal está quente", mas é quase como se as pessoas nem mesmo pensassem no metal e seu calor brilhante e no fato de bater enquanto o metal está quente porque ele é na verdade um pedaço de metal maleável que você está malhando em determinada forma antes de esfriar para não ter que esquentá-lo novamente.  Isso é coisa demais.  Isso foi encurtado para "Vamos fazer rápido."  Mas se você quiser realmente se comunicar, para que as metáforas tenham sentido como metáforas, você precisa inventá-las por conta própria o tempo todo.

 

Eu tenho essa regra inversa de importância:  quanto mais você é capaz de reduzir uma coisa específica, menos importante ela é na sua vida, em geral.  Quer dizer, para mim, as coisas realmente importantes da vida são aquelas que tendem a ser tão amplas que beiram o indescritível, cuja descrição dá muito trabalho.  Pegue um assunto como História.  Se você diz que uma batalha aconteceu em um certo campo de batalha em 14 de outubro de 1918, isso não significa quase nada sobre a Primeira Guerra Mundial.  Podemos concordar que historicamente isso aconteceu naquele momento, mas por si só esse dado não representa nada.  Isso não me diz nada sobre a guerra, por que aconteceu, qual foi o resultado, por que ela foi importante, por que as pessoas deveriam se importar com ela.  Só me diz que naquele dia várias pessoas se encontraram e se massacraram umas às outras.  E talvez se eu acrescentar alguns fatos específicos (morreram tantas pessoas, essa pessoa foi considerada vitoriosa) isso comece a ganhar consistência.  Mas, novamente, o sentido geral da guerra é muito maior.  Daí você diz: "Bem, para entender mesmo a guerra você precisa entender a história antes dela", e isso vai nos levar praticamente para o início dos tempos.  Pois, para entender realmente por que pessoas precisam matar umas às outras, você acaba em uma discussão sobre toda a humanidade, e aquela pequena batalha se transforma num pequeno ponto, um mero detalhe.  Logo, para mim, quanto mais você pode detalhar uma coisa, maior a chance de que ela seja pouco importante no esquema geral das coisas.  Quanto mais detalhado o assunto, quanto mais você pode compreender algo, menos valioso é esse entendimento.  E quanto mais incompreensível e ampla for uma coisa, mais vale a pena compreendê-la.  Esse é um preconceito meu.  Eu acho que assuntos irradiam a partir de detalhes específicos irrelevantes para as generalizações espirituais e filosóficas mais amplas que nós fazemos, e que a meta final é chegar até essas generalizações.  A única razão para compreender os detalhes é chegar às generalizações.

 

 

Uma escola livre e aberta é claramente o melhor ambiente para aperfeiçoar essas habilidades.  Essa é uma daquelas coisas em que somente a prática tem resultados.  Não dá para escrever um livro que ensine as pessoas a conversar.  Só aprendemos a conversar conversando.

 

O lance entre a educação e a conversação, o motivo pelo qual eu disse todas essas coisas, é que é impossível ensinar alguém a conversar.  Pense na quantidade de trabalho necessário para que linguistas fossem capazes de entender sintaxe, gramática e as regras que governam a comunicação entre as pessoas.  E todas aquelas regras foram desenvolvidas depois da comunicação!  Não é que as regras foram criadas para só depois as pessoas as seguirem.  O que aconteceu é que as regras se desenvolveram nesta grande interface na qual as pessoas estão falando umas com as outras e, então, a partir de um grande esforço intelectual, as pessoas descobriram o que estava acontecendo e elaboraram conceitos para explicar, criando as regras em si depois do fenômeno linguístico do mesmo modo como a Terra já estava orbitando em torno do sol muito antes de darmos um nome a essa órbita.  Demos a ela um nome e descobrimos como ela funcionava pois isso nos interessava.

 

Agora, a escrita é um modo de expressão muito mais formalizado do que a fala.  Quando as pessoas se sentam para escrever, escrevem parágrafos, frases, capítulos e organizam sua escrita da maneira adequada, como o ensaio, o conto, o romance ou a tese.  Estes têm formatos muito específicos se comparados às conversas, que fluem de uma maneira incrivelmente mais livre e são compostas por frases inteiras ou mesmo pela metade, quando você, já sabendo onde uma pessoa quer chegar só de olhar para ela, interrompe sua fala. Pense nisso.  Pense no geralmente complexo mundo da linguagem escrita e em como existem todos esses livros por aí para ensinar as regras que foram definidas milhares de anos depois das pessoas terem começado a escrever.  Você pode estudar os formatos que têm sido usados e pode tentar ajustar seu estilo para seguir mais ou menos esses formatos de modo a ser compreendido pelos outros seres humanos por meio da escrita. Agora, pense na conversação, com suas infindáveis falas paralelas, interrupções e mudanças abruptas de ritmo, e você irá perceber que não é possível nem mesmo começar a escrever um conjunto de regras sobre como se deve conduzir uma simples conversa.

   

O fato de você poder descrever essas regras é: elas serão muitas, e isso corrobora aquilo que eu havia dito antes. Só porque as pessoas podem descrevê-las não significa que isso seria compreensível pelos outros. Só porque você pode fazer algo não significa que você será capaz de explicar como fazer. Os raciocínios das pessoas estão sempre à frente de sua habilidade de descrever seus raciocínios. Há sempre um grande abismo entre o que você é capaz de fazer e aquilo que você é efetivamente capaz de descrever sobre o que faz. Será necessário combinar a energia mental de todas as pessoas para apenas começar a compreender como as mentes funcionam, ainda que todos tenhamos mentes e que façamos uso delas. O mesmo ocorre com a conversação.

 

É por conversar um zilhão de vezes que descobrimos por nós mesmos milhares de pequenos truques para fazer a outra pessoa nos compreender. Quanto mais você conversa, mais você descobre, basicamente por tentativa e erro. Ah, quando eu falei tal coisa a pessoa não entendeu, mas quando eu falei desse outro jeito, ela entendeu. Ah, no final da conversa, essa pessoa não me entendeu. Minha conversa fracassou. Caso eu tenha essa conversa novamente, o que eu preciso fazer para…? É um processo mental. Você nem raciocina deliberadamente sobre isso. Você apenas percebe, enquanto conta alguma coisa para outra pessoa, que ela não está compreendendo, e às vezes você fica muito triste e percebe que não importa o quanto fale, as pessoas não vão entender você, que você falhou totalmente em transmitir o que queria. Mas você continua tentando porque a vida continua colocando conversas em seu caminho e assim você segue tentando. Mal acabou uma conversa, você já está em outra com uma premissa totalmente diferente, com um conjunto totalmente diferente de regras e você já está lá pelejando com outra pessoa. Muito disso varia de pessoa para pessoa; outro motivo para não haver regras. Mas você continua conversando e a verdade é que, assim como qualquer outra habilidade humana, é praticando que nos tornamos melhores. O que você acaba dominando sendo articulado não são apenas palavras, no mero sentido de vocábulos, mas a compreensão da maneira como as pessoas irão conversar com você e os tipos de argumentos e modos de transmitir o que você quer dizer.

 

 

NOTAS

1 O texto original foi dividido em partes pelo tradutor para que sua leitura seja mais leve, pois o texto completo é bastante longo para leitura on-line.

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