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“Mas como eles vão aprender isto ou aquilo?”

October 22, 2015

Imagem: acervo Casa da Árvore

 

“Mas como eles vão aprender isto ou aquilo?”

 

Luís Gustavo Guadalupe Silveira – membro da equipe da Casa da Árvore

 

Diante de propostas de educação livre, especialmente as não-diretivas, tais como as Escolas Sudbury, surgem diversas dúvidas em nossas mentes. Um dos questionamentos mais frequentes diz respeito à exposição das crianças aos temas considerados “essenciais”. Essa pergunta pode ser formulada de diferentes maneiras: “Mas as crianças não precisam de estímulo para aprender isto ou aquilo?”; “Como elas irão conhecer isto ou aquilo se ninguém apresentar essas coisas para elas?”; “Como elas vão descobrir isto e aquilo sozinhas?” e assim por diante. Um olhar mais detalhado sobre essas perguntas revela que elas estão apoiadas em alguns pressupostos sobre aprendizagem e conhecimento humanos que não combinam com o Modelo Sudbury.

 

Em primeiro lugar, tais dúvidas estão ancoradas nas experiências que as pessoas tiveram em ambientes e instituições diretivos de educação. Nesses contextos, vigora um princípio básico segundo o qual “as pessoas só aprenderão as coisas essenciais se estas forem apresentadas diretamente (ou mesmo indiretamente) a elas”. Em conjunto a esse princípio básico atua outro pressuposto, o de que existem coisas essenciais (e que não são óbvias) que todos devemos saber. Vamos olhar essas duas ideias mais de perto.

 

Certamente, tanto as abordagens diretivas quanto as não-diretivas concordam que existem conhecimentos e habilidades essenciais para a vida do ser humano. No entanto, nos espaços educacionais Sudbury, o “essencial” é visto de uma maneira individualizada e prática, tendo mais a ver com o desenvolvimento de certas habilidades do que com a aquisição de certos conhecimentos. Dizer que a visão é “individualizada” significa que o “essencial” (ou o “básico”) vai ser encontrado por pessoas diferentes em momentos diferentes e de maneiras diferentes, mas que não há dúvida de que aquilo que é realmente “básico” vai entrar nas vidas das pessoas. Por exemplo, a habilidade de ler. Já há algum tempo, essa habilidade é considerada essencial (lembramos somente que nem sempre foi assim na História Humana, que há poucos séculos, ler não tinha a importância que tem hoje). Nas escolas Sudbury, a leitura não é uma habilidade essencial em si mesma. Ela é aprendida por ser uma ferramenta que permite a realização de atividades significativas para os indivíduos: ler um livro ou uma revista sozinho quando quiser, sem depender da disponibilidade de um leitor, ler as legendas e os menus de um jogo eletrônico, aprender as regras de um jogo de tabuleiro etc. Essas atividades são significativas para cada um por motivos pessoais, logo não faz sentido “estimular”, “motivar” ou “apresentá-las” de fora. O impulso para aprender coisas básicas (e as não-básicas também) vem de dentro e resulta de diversos fatores, entre eles a interação das crianças com os outros membros da comunidade de aprendizagem. Se um conhecimento, ou uma habilidade, for realmente básico, a pessoa que é deixada livre para realizar as atividades que deseja irá inevitavelmente deparar com ele. Se esta pessoa não for obrigada por um força externa a aprender aquilo num momento em que ela não está preparada (ou interessada), se ela puder experimentar, errar, deixar de lado e voltar quando quiser, no momento propício, ela aprenderá. Na Casa da Árvore, por exemplo, temos o caso de uma criança que aprendeu sozinha a ler e escrever com letras minúsculas de imprensa. Esse aprendizado se deu em função da necessidade de se comunicar dentro de um jogo eletrônico e de modificar o jogo por meio de comandos de texto. Em questão de meses, a criança dominou essa habilidade e, dentro do jogo, escreveu três pequenos livros de histórias. Motivada internamente. Porque era importante para ela.

 

Em termos de quantidade, o básico é pouca coisa, dá para fazer uma lista pequena com esse tipo de conhecimento e habilidade. O que acontece muitas vezes é uma confusão entre o básico como ferramenta que permite realizar coisas complexas, e as coisas complexas que podem ser conquistadas a partir do básico. Assim, se você perguntar para profissionais de diferentes áreas o que é conhecimento básico para eles, possivelmente você irá obter respostas diferentes. O que é essencial para um médico pode não ser para um músico. Mas se tomarmos como ponto de vista uma única perspectiva individual, corremos o risco de fazer uma lista enorme de coisas básicas que serão inúteis segundo outros pontos de vista. Assim, as escolas Sudbury respondem à pergunta “Mas como as crianças irão aprender o básico da vida?” dizendo: “Vivendo, ou seja, explorando, experimentando, fazendo, conversando… O que for mesmo básico terá que ser aprendido para que a criança realize as coisas que deseja fazer.” E isso não é “estimulado” de fora para dentro pois ninguém, além da criança, sabe o que é importante para ela aprender num determinado momento.

 

Assim, a apresentação das coisas essenciais é desnecessária, pois não acreditamos que alguém saiba de antemão o que é essencial para a outra aprender. Segundo o Modelo Sudbury, ninguém além do aprendiz tem a capacidade (e o direito) de saber o que é ou não importante para ele, e também é impossível definir de antemão o que é necessário para o outro, ou esgotar numa lista todas as possibilidades de conhecimentos a serem aprendidos por alguém. Diante da capacidade que todos nós temos para aprender o que precisamos para viver, visto que aprendemos a andar e a falar em nosso próprio ritmo e tempo, motivados internamente para isso, as escolas Sudbury não se preocupam em apresentar nada para os aprendizes e na verdade evitam isso a todo custo, para não correrem o risco de sobrepor a própria agenda às agendas individuais.

 

Chegamos, então, a outra dúvida importante: “Como as crianças sozinhas irão conhecer isto ou aquilo se ninguém apresentar essas coisas para elas?”. Bem, elas não irão. Pelo menos, não sozinhas. A maneira como as crianças nos espaços educacionais Sudbury entram em contato com os assuntos (qualquer assunto) é a mesma maneira como os adultos entram em contato com os assuntos em suas vidas: conversando e observando. Sem uma hierarquia pré-determinada de “aprendentes” e “ensinantes”, todos podem ser fontes de conhecimento. Num espaço em que as pessoas fazem aquilo que escolheram fazer (resultando em atividades feitas com gosto e afinco), os observadores terão à disposição uma miríade de atividades sérias, feitas “pra valer”. Livres para conversar quando, como e com quem quiserem, crianças e adolescentes irão abordar os mais diversos assuntos, todos importantes para os envolvidos nos bate-papos, com ramificações imprevisíveis (quem de nós nunca experimentou uma conversa tão boa e duradoura que, ao final, chegou a um assunto tão distante do tema inicial que ninguém mais conseguia se lembrar de como a conversa havia começado?). Além disso, a gama de atividades e conhecimentos à mão não se limita ao que pode ser compartilhado pelos participantes dentro da comunidade de aprendizagem, já que as escolas Sudbury são abertas tanto a colaborações externas quanto fomentam a participação dos aprendizes em atividades fora do espaço educacional. Na Casa da Árvore, certa vez, um aprendiz propôs em Assembleia que fosse construída uma casa na árvore. Ficou decidido que o aprendiz deveria apresentar um projeto da casa, com material, planta e custos em uma outra Assembleia. Um dos membros da equipe passou o contato de uma pessoa que havia construído uma casa na árvore e, com a ajuda de outro membro da equipe, o aprendiz escreveu solicitando uma visita para ver de perto a construção.

 

Certamente, não é possível prever ou controlar os assuntos ou habilidades que irão interessar aos jovens aprendizes em espaços educacionais assim. Tampouco, é possível precisar quando alguém irá aprender “o básico”, pois cada trajetória é pessoal e incomparável. Por isso, não faz sentido aqui determinar quando e como as pessoas irão aprender determinado assunto. A única certeza que se pode ter é que as pessoas irão aprender o que é importante para elas e que irão crescer num ambiente propício ao desenvolvimento de uma habilidade “básica” para toda aprendizagem: a curiosidade.

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