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Sobre autoridade, liberdade e respeito

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Imagem: acervo Casa da Árvore

 

Sobre autoridade, liberdade e respeito

 

Luís Gustavo Guadalupe Silveira – membro da equipe da Casa da Árvore

 

 

Um dos maiores desafios que enfrentamos como membros de equipe da Casa da Árvore, uma comunidade de aprendizagem inspirada no Modelos Sudbury de Educação, é abrir mão do controle e da autoridade que a maioria de nós adultos estamos acostumados a exercer em outros contextos. Aqui, apenas a comunidade, corporificada em instâncias como a Assembleia Semanal e a Comissão de Justiça, tem autoridade para tomar decisões que afetem a todos os seus membros, aplicar penalidades diante de infrações às regras de comportamento etc. O que torna esse desafio mais complicado é que o controle e a autoridade “inerentes” dos adultos, que derivam no final das contas de uma “superioridade” cultural reconhecida aos “maiores de idade”, podem se manifestar em atitudes aparentemente cuidadosas e, o que é pior, “pedagógicas”.

 

Na Casa da Árvore, a única situação em que a interferência do adulto é autorizada de antemão é a que apresenta risco real à integridade física dos aprendizes – o que só acontece raramente. No restante do tempo, as crianças e adolescentes devem lidar pessoalmente com a liberdade de escolha e a responsabilidade que acompanha essa liberdade. Quando sua atividade desorganiza ou suja algum espaço, ela sabe que é tarefa sua cuidar para que tudo fique como era antes, pois o espaço é de uso comum e há regras que foram elaboradas pela comunidade para reafirmar isso. Eles podem escolher não limpar, não guardar, não organizar, não cuidar (o que deixa a equipe bastante desconfortável, quase sempre), mas terão que lidar com as consequências de suas atitudes: a possibilidade de encontrar espaços e recursos impróprios para o uso que desejam fazer, receber uma reclamação por escrito que será apurada pela Comissão de Justiça e, caso seja verificada sua responsabilidade pela infração de uma regra, respeitar a punição que lhe for atribuída por essa Comissão.

 

Isso significa que a comunidade não irá funcionar “como um relógio” a maior parte do tempo, que regras serão quebradas, que o espaço não irá ficar “como os adultos gostariam que ficasse”, etc. Mas significa também que cada membro da comunidade irá descobrir, a seu tempo, como lidar com as regras e limitações da vida em grupo, com o conflito muitas vezes inevitável entre seus desejos individuais e os das outras pessoas. Vai aprender a confiar e a usar os mecanismos estabelecidos pelo grupo para resolver os conflitos e cuidar para que as regras sejam respeitadas. Vemos isso acontecer na prática quando uma criança estabelece os limites aceitáveis para o comportamento de outra criança expressando claramente esses limites ou apelando, quando isso não é suficiente, para o “vou fazer uma reclamação contra você porque você está desrespeitando uma regra.” Ou quando um aprendiz pede para os companheiros de atividade uma, duas, três vezes por ajuda para organizar um espaço e, não obtendo resposta, faz uma reclamação por escrito que é levada para a Comissão de Justiça, perante a qual os companheiros assumem a falta e recebem a punição que o grupo acha mais justa.

 

Assim, nós da equipe exercitamos o respeito diariamente com os aprendizes, pois a liberdade de escolha que é garantida a todos muitas vezes significa que o outro não irá fazer as escolhas que eu acho adequadas, mas as que a pessoa acredita serem melhores. E, como equipe, exercitamos o desapego com uma postura protecionista e paternalista comum aos adultos em nossa cultura, pois liberdade com responsabilidade significa não interferir nas escolhas dos outros e também deixar que eles lidem com as consequências de seus atos, sem criar situações artificiais nem decidir interferir ou não em uma situação com base na intenção de “ensinar uma lição” (se eu guardei a vassoura deixada fora do lugar por outro membro da equipe, por que não posso guardar essa revista que um aprendiz esqueceu no sofá? Por que é mais fácil cobrar uma criança sobre o cumprimento de uma regra do que um adulto?). Os resultados do respeito são colhidos amiúde, um dia aqui, outro ali, mas ajudam a manter a crença nos princípios com os quais escolhemos trabalhar. Além dos exemplos citados acima, vemos aprendizes limpando espaços espontaneamente ou pedindo para participar da faxina, guardando objetos que eles mesmos usaram juntamente a objetos usados pelos outros, assumindo a responsabilidade pelas infrações de que estão sendo acusados durante as reuniões da Comissão de Justiça e respeitando as respectivas punições, ou se voluntariando para secretariar uma dessas reuniões, mesmo sem saber escrever ainda.

 

A dificuldade que nós da equipe sentimos ao abrir mão do controle e da autoridade num determinado momento parece ser proporcional aos benefícios obtidos ao se realizar essa “façanha”. Um dos casos mais emblemáticos pra nós foi o que aconteceu quando uma das crianças se viu excluída repetidamente das brincadeiras de outras crianças. Acostumada a brincar com elas, a criança ficou profundamente chateada com essa situação e procurou um membro da equipe para desabafar. Resistindo ao impulso comum de interferir diretamente (“Gente, vamos deixar a/o amiguinha/a brincar também?”), o membro da equipe acolheu o choro da criança “excluída”, disse sentir muito mas não poder fazer nada além de oferecer colo, pois a brincadeira era daquelas crianças e elas tinham o direito de decidir quem participaria ou não (esse tipo de coisa está fora dos limites das regras estabelecidas pelo grupo). Isso se repetiu mais uma vez. Dentro de poucos dias, todas as crianças envolvidas estavam brincando juntas e seguem sendo parceiras de “aventuras” até hoje, um ano depois disso ter acontecido. Mesmo se o resultado fosse diferente, se essas crianças não voltassem a brincar mais juntas, continuaríamos tendo a certeza de que a resolução da questão partiu delas, refletiu os desejos e acordos dos principais interessados e portanto foi a melhor solução. Acreditamos que o risco de atropelar o desenvolvimento de cada um dos envolvidos na situação e de impor critérios externos a uma vivência que pretendemos ser capaz de promover a autonomia dos aprendizes não vale a resolução a curto prazo dos conflitos. Atualmente, um dos problemas enfrentados pelos aprendizes diz respeito ao que vale e o que não vale em certas brincadeiras de faz-de-conta, se o “dono” da brincadeira tem ou não o direito de decidir o que todos podem ou não fazer. Esses debates já duram algumas semanas e é possível observar mudanças na dinâmica das brincadeiras e das negociações que elas envolvem. Nós, da equipe, assistimos respeitosamente esses impasses, sem nos intrometermos (ninguém pediu nossa opinião até agora), confiando que, seja qual for a decisão tomada pelas pessoas envolvidas na atividade, as coisas vão se resolver da melhor maneira possível.

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