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Elementos de um Sistema Judicial justo

September 3, 2015

 Foto: Casa da Árvore

 

 

Elementos de um Sistema Judicial justo[1]

 

GREENBERG, Daniel. Elements of a Fair Judicial System. Disponível em: http://www.sudval.com/essays/082015.shtml. Acesso em 4 ago. 2015.

 

Tradução de Luís Gustavo Guadalupe Silveira

 

 

O tema desse artigo é central para qualquer escola Sudbury – de fato, para qualquer comunidade. A palavra-chave do título, como veremos, é “sistema”. Entretanto, primeiro quero discutir a palavra “judicial”.

 

Eu destaquei em outro lugar[2] que o maior problema na formação de qualquer comunidade social é a tensão inerente entre o indivíduo – o desejo individual de realizar seus objetivos de vida – e a necessidade de abrir mão de parte dessa individualidade a fim de satisfazer os instintos sociais da espécie humana. A natureza desse sacrifício se manifesta na existência de um grupo de regras que regula o comportamento dos indivíduos na comunidade. O que se passa no seu interior – seus sonhos, pensamentos e aspirações – não afeta o resto do grupo; é a maneira como você se comporta dentro do grupo que é objeto das regras. E tão logo você tenha um grupo de regras estabelecidas na comunidade, você tem o problema imediato do que fazer quando as regras são quebradas – pois elas serão quebradas, isso é garantido! O sistema judicial é a maneira da comunidade lidar com as infrações das regras que foram estabelecidas para lidar com ações que resultam da tensão entre os desejos individuais e as necessidades da comunidade. Toda ordem social, não importa o quão primitiva, tem algum procedimento judicial. Mesmo a menor tribo, mesmo famílias, têm. Elas não usam esse termo, mas é isso que acontece todo dia dentro da estrutura familiar, pois a mesma tensão ocorre sempre que você tiver mais de uma pessoa interagindo frequentemente.

 

O procedimento judicial de qualquer sociedade é o coração dessa sociedade. Eu não havia compreendido a verdade disso até começar a organizar minhas ideias para esse artigo. O coração de qualquer comunidade é a maneira que ela criou para agir quando as regras elaboradas para lidar com a tensão entre o grupo e o indivíduo são quebradas. Um grupo que ainda não tenha descoberto isso não é viável, pois a única coisa que você sabe que vai acontecer é que pelo menos algumas regras serão quebradas.

 

A importância crítica do procedimento judicial é algo que as pessoas percebem instintivamente. Por exemplo, na SVS, frequentemente ouvimos que “o Comitê Judicial  é o coração da escola.” Deve ser por isso que muitos estudantes gostam de observar o CJ. O fato de o CJ ser aberto permite que crianças de todas as idades entrem e saiam. Elas sentem que é algo que elas querem ficar de olho, de que querem se assegurar. Durante o ano, a mais incrível mistura de pessoas de todas as idades vem e vai, não somente as envolvidas nas queixas que estão sendo tratadas. Elas sentem a importância do CJ.

 

 

É sobre o “sistema” do “sistema judicial” que eu gostaria de me concentrar agora. Um sistema é um jeito organizado e interconectado de lidar com situações. Aparentemente, sistemas judiciais foram criados há uns 5 mil anos. O mais conhecido exemplo é o primevo sistema babilônico, estabelecido por Hammurabi, um sábio governante desse antigo império. Seu sistema tinha cinco importantes componentes que sobreviveram ao tempo.

 

O primeiro era a exposição clara da origem das regras. No caso do código de Hammurabi, ele, o rei, era a fonte de todas as regras. Não havia dúvidas quanto a isso. No império babilônico, se você fosse a uma comunidade e tentasse estabelecer regras para ela, a menos que pudesse mostrar que havia recebido sua autoridade diretamente do rei, suas propostas não teriam força alguma.

 

Em segundo lugar, deveria haver uma lista pública visível das regras em linguagem comum, amplamente distribuída. Não era fácil publicar o código de Hammurabi, já que cada cópia tinha que ser escrita nos caracteres cuneiformes (uma forma de símbolos silábicos, contendo centenas de caracteres diferentes) impressos em placas de argila, que tinham que ser distribuídas por todo o império; mas era importante, e foi feito.

 

Terceiro, a clara definição de quem estava autorizado a conduzir os procedimentos judiciais. O rei poderia promulgar as regras, mas o sistema precisava criar internamente uma autoridade com o poder de fazer valer as regras.

 

Quarto, a definição dos parâmetros de um procedimento judicial correto. Isso determinava como os procedimentos deveriam ser conduzidos e estabelecer uniformidade ao longo do império.

 

Finalmente, o quinto elemento do sistema era uma especificação das consequências para a violação das regras.

 

Os cinco elementos acima constituem um sistema judicial. Com o passar do tempo, a maioria das comunidades aceitaram a necessidade de um sistema judicial que possuísse todos os cinco elementos, embora a natureza de cada um deles pudesse variar.

 

 

Vamos olhar cada um desses cinco fatores mais de perto. Podemos começar com o primeiro: uma exposição clara da origem das regras sociais. Historicamente, sabemos que elas vieram de reis, ditadores, líderes militares que tomaram o poder, de organizações plutocráticas[3] – de fato, de vários grupos de pessoas que tiveram o poder para controlar as sociedades. Todos esses casos são exemplos de regras impostas por alguma force majeure[4] que pode impor sua vontade sobre a comunidade. Há muitas sociedades nas quais se alega que as regras têm uma origem divina: acreditam que Deus os instruiu claramente sobre como se comportar. Nessas sociedades teocráticas, todas as regras são prescritas divinamente, não somente aquelas dos rituais religiosos.

 

Democracias liberais, por contraste, criaram um método de elaborar regras que busca assegurar “propriedade” e aceitação amplas das regras, junto a mecanismos para mudar as regras em resposta à autopercepção e às necessidades mutáveis da sociedade.  Desenvolve-se um mecanismo – diferente para cada país – por meio do qual se pode dizer que as regras derivam do consentimento dos governados; em outras palavras, da comunidade como um todo, em vez de um Deus ou uma restrita classe governante. Vários estudiosos sentem que, com o tempo, essa abordagem irá substituir todas as outras como uma fonte universalmente aceita de regulações para as comunidades. Em nossa escola, baseada no modelo da democracia liberal, a única fonte de regras para a comunidade é a comunidade como um todo, cuja vontade ganha expressão tanto nas Assembleias Escolares quanto nas Assembleias Gerais.

           

 

Vamos observar agora o segundo fator: uma lista pública visível das regras em linguagem comum, amplamente distribuída. Essa foi a maior contribuição de Hammurabi, pois garantiu que todos em seu império pudessem determinar inequivocamente quais eram, com precisão, as leis do império. A palavra-chave aqui é “com precisão.” Todos podiam pelo menos acessar a formulação exata de cada regra. Acho que vale a pena dar atenção a esse fato, pois mais uma vez isso destaca o fato de que a invenção da escrita foi o que possibilitou a existência de sociedades extensas, estáveis e funcionais. A escrita nos permite transmitir informação de uma maneira precisa e inequívoca no tempo e no espaço. Tão logo você tenha uma comunidade extensa, isso se torna essencial. A maioria de vocês, quando era criança, brincou de “telefone-sem-fio”, então consegue imaginar o que acontece quando um rei fala para o ministro, oralmente, o que ele deseja, e o ministro fala para seu assistente, e o assistente fala para dezesseis subordinados e eles ordenam que os mensageiros informem os governantes em lugares a muitas milhas dali. A probabilidade de que isso dê certo é bem pequena, e o resultado mais provável será muita confusão! A partir do momento em que você “faz por escrito,” tudo muda. Escrever as leis é crucial para ter um sistema judicial estável e efetivo. Os romanos antigos levaram isso para um novo patamar; a lei romana se tornou o modelo de todos os subsequentes sistemas legais do ocidente. Eles sofreram bastante para desenvolver um conjunto de leis altamente detalhadas que eram promulgadas por todo o seu vasto império.

 

A existência de um código de leis escritas tem uma implicação negativa que também é extremamente importante: qualquer coisa que não esteja explicitamente contida no código não é uma lei. Isso é tremendamente significativo, pois proíbe os oficiais de dizer que uma regra existe quando essa afirmação não é legítima. Se não está no código, não é uma lei, não importa o que digam. Essa é uma falha comum nos sistemas escolares em geral, nos quais, em última instância, algum funcionário administrativo, como o assistente do diretor, efetivamente faz regras ad hoc. Em nossa escola, é muito importante que tenhamos um Livro de Regras oficial, com todas as regras aprovadas na Assembleia Escolar (e nada mais!). É difícil pra nós recordar que em 1968, quando começamos, não havia nenhuma regra nesse Livro. Nossos arquivos ainda guardam o Livro de Regras que vigorava ao final de nossa primeira Assembleia de verão; ele tinha uma página. Aos poucos, ele cresceu, e então se tornou caótico depois de um tempo, pois aprovávamos uma regra e simplesmente a acrescentávamos ao final da lista. Rapidamente percebemos que tínhamos que organizar aquilo de alguma forma, e foi criado um comitê para fazer isso. Acabou se mostrando uma tarefa e tanto!

 

 

O terceiro ingrediente de um sistema legal é uma delineação clara de quem está autorizado a conduzir os procedimentos judiciais. Quando os antigos israelitas escaparam do Egito sob o comando de Moisés, ele pessoalmente decidia tudo, de acordo com a explicação bíblica. Isso leva a uma história fascinante. O sogro de Moisés o visita e o vê em ação, e então exclama: “Você está louco? Você vai arruinar tudo!” Ele então instruiu Moisés: “Não é assim que se conduz um sistema legal,” o sogro disse. “O que você tem que fazer é indicar magistrados seniores para cada mil pessoas, magistrados inferiores para cada cem e magistrados subsidiários para cada dez. Primeiro os casos são ouvidos no nível inferior, se houver apelação, vão para os superiores, até que os poucos casos mais difíceis cheguem até você, como o árbitro final.” Moisés fez isso, e finalmente conseguiu dormir um pouco!

 

Nas sociedades mais complexas dos últimos milênios, uma categoria separada de pessoas foi estabelecida, chamadas de “juízes”, para cuidar dos procedimentos judiciais.[5] Nas democracias liberais, espera-se que os juízes sejam independentes de pressões políticas. Mesmo nos tempos antigos, era amplamente aceito, em princípio, que juízes não poderiam aceitar suborno ou ser influenciados por fatores externos. Mas se tornou cada vez mais importante nos tempos modernos que juízes sejam independentes de todas as influências políticas. A existência de muitas histórias de influência política destrutiva explica o aumento da exigência por essa independência.

 

Ser um juiz não é só carregar esse título. É muito fácil dizer “Você é um juiz”, mas o que exatamente faz um juiz? De fato, ele faz duas coisas. Determina o que a lei quer dizer e se uma lei foi desrespeitada. Essas são duas tarefas diferentes. Determinar o significado de uma lei é um ato de julgamento. Leis são somente palavras, e palavras não significam nada a menos que estejam ligadas a algo concreto. Além disso, é impossível obter concordância universal a respeito do significado real das palavras. Nem mesmo duas pessoas concordam completamente com o significado de uma frase. Assim, o juiz é confrontado com uma denúncia de violação de uma lei, e a primeira coisa a decidir é o significado da lei e como ela se aplica ao ocorrido. Frequentemente, ouvimos reclamações de um grupo ou outro de que os juízes não deveriam “fazer leis”; eles deveriam apenas “interpretar leis.” Mas os juízes sempre fazem leis. Eles não podem evitar. Todo juiz, em toda decisão, está fazendo lei, e a lei que o juiz fez se reúne a uma série de precedentes que gradualmente cresce dentro da comunidade e esclarece o significado da lei.

 

Na Sudbury Valley, os membros do Comitê de Justiça são juízes.[6] O CJ interpretou as regras de maneiras diferentes ao longo da história da escola. Toda vez que um caso é trazido ao CJ, a questão é: “O que a regra quer dizer? Ela contempla esse incidente, tem alguma coisa a ver com ele?”

 

Muitos anos atrás, elaboramos um Livro de Casos, que contém um conjunto de precedentes, para orientar o Comitê de Justiça no dia a dia a partir do que aconteceu no passado em situações parecidas. O Livro de Casos é acessado com frequência. Por exemplo, podemos ter uma regra aparentemente simples, como “Não é permitido correr ou causar distúrbios dentro dos prédios ou nas varandas.” O Livro de Casos lista todas as maneiras precedentes que foram aplicadas e dá significado concreto aos conceitos de “correr” e “causar distúrbios”. Assim, aprendemos que, no passado, o CJ, em casos específicos, considerou que as seguintes atividades se enquadram na regra em questão: caminhar vigorosamente enquanto serve de “cavalinho” para outra pessoa; tentar jogar glacê no rosto de outra pessoa; fazer cócegas em outra pessoa, ou permitir que outra pessoa faça em você; virar estrela dentro dos prédios; girar em círculos dentro dos prédios; brincar de arremesso com qualquer objeto dentro dos prédios; fazer malabarismo dentro dos prédios; pegar uma cadeira enquanto alguém está se sentando nela e arrastá-la por aí; e assim por diante. De fato, o Livro de Casos lista 107 diferentes tipos de atividades que o CJ considera enquadrar-se na regra, organizados em quatro categorias gerais (Distúrbio Físico; Correr; Arremesso; Propriedade). Certamente, todos esses precedentes são, para o CJ, o mesmo que os precedentes são nas cortes do mundo todo:  são guias e podem ser contrariados se o CJ assim o desejar.[7]

 

O quarto componente de um sistema judicial é uma definição clara de todos os parâmetros de um procedimento judicial justo. Isso envolve a outra função dos juízes, que é definir se uma violação realmente aconteceu. Ela é chamada de “determinar os fatos do caso.” Temos algo em nosso país[8] que se chama “devido processo,” que orienta como olhamos para as circunstâncias do caso. Como é de se esperar, o significado de devido processo vem sendo elaborado pela Suprema Corte ao longo do tempo, que determinou, por exemplo, que sob o devido processo, os réus têm o direito de ser informados explicitamente sobre seus direitos.

 

Há certas coisas que todos concordam fazerem parte de um devido processo. Primeiramente, uma ação ou evento específico deve ter supostamente acontecido para que uma regra seja violada. Alguma coisa tem que ter acontecido. Ninguém jamais pode ser julgado por simplesmente querer fazer algo. Eu não quebro nenhuma regra se fico sentado aqui pensando “Eu gostaria de esganar o fulano e o beltrano,” sem contar isso pra ninguém. Não comecei a planejar isso, não andei por aí dizendo “Vamos lá esganar o fulano e o beltrano,” eu só pensei nisso. Tenho certeza que todos nós já tivemos pensamentos criminosos. Provavelmente, estaríamos todos na cadeia caso pudessem nos condenar por nossos pensamentos.

 

Em segundo lugar, é preciso que haja algum tipo de testemunho – seja um testemunho direto, uma testemunha ocular ou uma evidência circunstancial – de que o acusado realmente tomou parte da ação. Isso traz à discussão as testemunhas e as evidências físicas.

 

Em terceiro lugar, deve haver um exame minucioso das testemunhas para atestar a validade de seu testemunho, especialmente quando há testemunhos conflitantes (o que acontece o tempo todo). Deve haver oportunidade para o acusado se defender e confrontar os acusadores, e trazer testemunhas favoráveis à sua defesa. Não é suficiente ter testemunhas e dizer: “Tudo bem, não precisamos chamar o acusado, sabemos que ele é culpado.” Pois talvez ele seja culpado, talvez não. É preciso dar ao acusado o direito de se defender legitimamente.

 

Finalmente, deve haver oportunidade para que os juízes deliberem confidencialmente antes de concluir se uma lei foi ou não desrespeitada e, caso ela tenha mesmo sido, se o acusado foi a pessoa que cometeu a infração.

 

Esses são os componentes do devido processo amplamente aceitos em nossa cultura. Na Sudbury Valley, os estudantes os aceitam e esperam por eles. Esperam que o CJ não pule direto para as conclusões sem ouvir as testemunhas. Esperam que o CJ ouça cuidadosamente o acusado, e evite acusar alguém da violação de uma regra antes de analisar todos os fatos. Uma das razões pelas quais muitos estudantes entram e saem dos procedimentos do CJ todo dia é somente para se assegurar de que o sistema esteja funcionamento adequadamente.

 

 

O quinto componente de um sistema judicial justo é provavelmente o mais controverso. Deve haver uma determinação das consequências sociais para a violação de uma regra. Esse é o ponto culminante de qualquer sistema judicial justo.

 

Gostaria de voltar atrás um pouco para colocar a situação em perspectiva. Aconteceu de uma pessoa ter sido pega quebrando uma regra estabelecida pela comunidade. A regra foi criada pois a comunidade sentiu que ela era necessária ao seu funcionamento. Foi aqui que começamos. O sistema judicial existe para apoiar a regra, sendo assim um componente central para a manutenção da existência da sociedade. A regra é uma limitação da liberdade individual que a sociedade sentiu ser necessário impor.

 

Assim, a questão é: o que acontece depois? Um dos resultados possíveis diante de uma infração é a comunidade rever a regra e talvez modificá-la. Esse resultado é raro, mas acontece.[9]

 

Se a comunidade continua a valorizar a regra, o que ela faz na maioria das vezes, quais são as opções disponíveis? Antes de responder, temos que entender o propósito de qualquer ação da comunidade. Antes de tudo, a comunidade está diante da necessidade de prevenir que a violação aconteça novamente. Ela nem queria que a violação tivesse acontecido, em primeiro lugar. Agora ela está diante do fato de que a transgressão aconteceu, e a partir do momento em que a regra não foi revogada, ela não quer que isso aconteça novamente. Isso tem duas consequências. A primeira tem a ver com o indivíduo que quebrou a regra. Não queremos que ele quebre a regra outra vez. Há várias maneiras de conseguir isso. A mais fácil é conscientizar – de um jeito ou de outro, tornar a pessoa mais consciente de quão importante é a regra, do fato de que realmente nos importamos com a regra. Não que o infrator não conheça a regra; você pode conversar com qualquer criança de cinco anos em nossa escola e ela irá recitar metade do Livro de Regras pra você. Elas conhecem as regras. Dessa forma, o que fazemos é dizer: “Sabe, você pode não ter percebido como isso é importante, mas nós sim. Vamos deixar passar dessa vez, mas queremos que você saiba que nos importamos e que não queremos que você faça isso novamente.”

 

Caso a pessoa cometa a infração mais uma vez, você está diante da necessidade de convencê-la, de alguma forma, de que o custo por quebrar essa regra repetidamente não vale o benefício que ela tira dessa ação. A escola tem vários meios de intensificar os custos em relação aos benefícios colhidos pelo infrator. Para uma pessoa que corre no corredor, às vezes você pode dizer: “Hoje você não pode mais usar esse corredor,” e será suficiente. Se você pega a mesma pessoa correndo no corredor, três dias depois, após o cumprimento da penalidade, você pode dizer: “Já havíamos dito pra você não correr no corredor, e você está aqui novamente? Você não poderá ficar no andar de cima por um dia inteiro.” Independente da maneira como você conduza o caso, em algum momento os custos acabarão sendo altos o bastante.

 

Caso seja uma regra que você acredite ser crucial para a sobrevivência da comunidade, o custo tem que ser realmente alto, para que a infração não aconteça novamente. Se alguém fizer algo ilegal ou algo que coloque em risco a existência da comunidade, é preciso se assegurar de que o custo de repetir essa ação, ou o custo de fazê-la uma vez que seja, seja alto o suficiente para que ela não aconteça mais uma vez. Caso a comunidade ignore essa consideração, ela irá sofrer as consequências depois. Toda comunidade que a ignorou, como fizemos por um longo tempo no passado, aprendeu essa lição do jeito mais difícil.

 

O segundo resultado que a comunidade deseja alcançar é evitar que outras pessoas quebrem a regra. Esse é o fator de dissuasão. Todas as comunidades das escolas Sudbury são pequenas. Seus membros sabem o que está acontecendo. Eles sabem que o fulano e o beltrano quebraram certa regra, e esperam para ver o que vai acontecer; todos sabem qual vai ser a sentença, frequentemente bem antes de ela ser formalizada. Por exemplo, todos sabem que, se fizerem bagunça, serão advertidos na primeira vez, mas se fizerem de novo, terão que tirar o lixo de um dos andares por dois dias, e assim por diante. Tivemos crianças que tiveram que tirar o lixo de dois andares por uma semana! A questão é, se alguém estiver observando isso, pode pensar: “Deixei meu lixo espalhado por aí, e não estou afim de jogar no lixo.” Ele sabe que uma pessoa que deixa sujeira espalhada, na primeira vez, normalmente só recebe uma advertência, então pode pensar, ou mesmo intuir: “Grande coisa! Não estou afim de jogar isso fora, daí vou receber uma advertência, ou vou ter que tirar o lixo por um dia.” Ele terá observado o custo, comparando-o com os ganhos. Todos fazemos isso, especialmente nos casos mais sérios. A dissuasão fica mais importante à medida que os casos se tornam mais sérios, pois estes normalmente dão às pessoas a impressão de resultarem em ganhos maiores. Assim, uma pessoa só faria uma atividade ilegal na escola caso essa atividade garantisse a ela um alto grau de gratificação. Como tais atividades colocam toda a comunidade escolar em risco, quando elas acontecem a sentença aplicada pela comunidade é sempre severa, um fato bem conhecido que claramente ajudou a diminuir a vontade de fazer esse tipo de atividade.

 

Alegamos não ter nenhuma tolerância por qualquer tipo de violência física e falamos sério, mas a questão é: quando alguém cruza a fronteira entre agir com “excesso de entusiasmo” e ser violento? Vamos imaginar que todos concordamos que um incidente violento se tornou potencialmente perigoso. Aprendemos ao longo dos anos que é preciso responder assertivamente em casos assim. É preciso passar uma mensagem bem clara para o resto da comunidade, não somente para o infrator, de que não queremos esse tipo de comportamento na comunidade, e que pessoas violentas serão tratadas com severidade.

 

O terceiro fator que entra em cena quando é preciso determinar as consequências para a violação de uma regra é particularmente importante: as consequências fornecem um tipo de desfecho entre o infrator e a comunidade. Uma consequência é uma espécie de pacto entre a pessoa que quebrou a regra e a comunidade, e ela alivia a tensão em seu interior. A comunidade está dizendo: “É assim que expressamos nossa reprovação. Contudo, uma vez que você tenha cumprido a pena, a tensão que o seu ato criou entre nós será aliviada. Você estará completamente conosco outra vez.” O elemento de desfecho da consequência é tão importante que ignorá-lo traz o risco de inserir a vergonha na relação entre o infrator e a comunidade, e isso pode ter resultados terríveis. O infrator irá se preocupar “em não dar as caras.” As pessoas querem sentir que, caso  tenham feito algo que a comunidade claramente desaprova, elas possam de alguma forma fazer as pazes e voltar a ser parte da comunidade. A consequência dá a ela essa oportunidade.

 

 

Esses são, então, os elementos de um sistema judicial justo. Eles são complexos, mas fornecem a chave para uma união satisfatória da individualidade, que valorizamos tanto e desejamos ver florescer, com o senso de comunidade, que valorizamos tanto e desejamos ver florescer. O sistema judicial é onde os dois se encontram.

 

 

 

[1] Baseado em uma palestra proferida em 10 de julho de 2005, durante o Workshop de Verão para Membros da Equipe de Escolas Sudbury e Grupos Iniciantes, realizado no câmpus da Sudbury Valley School.

 

[2] Ver “The Core Ideas of the Sudbury Model,” The Sudbury Valley School Journal, v. 35, n. 1, oct. 2005, p. 6-16.

 

[3] Governo dos mais ricos (NT).

 

[4] Força maior (NT).

 

[5] Eu uso esse termo num sentido amplo, para me referir a qualquer pessoa que sirva a essa função. Na linguagem atual, tais pessoas são referidas como juízes, ou magistrados etc.

 

[6] Em algumas circunstâncias, um júri separado serve de juiz; mas isso não acontece com frequência.

 

[7] E, algo bastante interessante, a doutrina geral do stare decisis (ou seja, que decisões anteriores podem ser mantidas) normalmente governa as decisões do CJ, embora de modo mais intuitivo que formal. A menos que haja grande inclinação por parte do CJ para contrariar o precedente, o material do Livro de Casos serve como um guia válido para as decisões.

 

[8] O autor se refere ao Estado Unidos da América (NT).

 

[9] Tínhamos uma regra que proibia comida e bebida na Sala de Arte. Essa é uma regra perfeitamente razoável. Se eu estiver segurando um refrigerante e acontecer de precisar falar algo a Joanie, e entrar na Sala de Arte, todos lá dentro irão dizer “RECLAMAÇÃO!” Mas toda vez que vou à Sala de Arte, há uma garrafa de água lá. É a garrafa de Joanie! “Não há nada de errado em trazer água para a Sala de Arte,” ela diria. “Comida e bebida não são permitidas, Joanie, e água é uma bebida,” eu iria comentar. “Não é uma bebida.” Agora, todos na Sudbury Valley sabem que Joanie inventa regras; às vezes, ela até inventa definições para as palavras, e estava convencida de que água não é uma bebida! Finalmente, alguém preencheu uma reclamação contra ela. Bem, a regra foi mudada pela Assembleia Escolar. Agora, diz: “Comida e bebida, exceto água, são proibidas na Sala de Arte.”

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