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Sobre estar interessado

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 Imagem: arquivo Hudson Valley Sudbury School

 

Sobre estar interessado

 

GREENBERG, Daniel. On Being Interested. In: Worlds In Creation. Framingham: Sudbury Valley School Press, 1994. p. 317-330.

 

Tradução de Luís Gustavo Guadalupe Silveira

Para baixar a versão em pdf, clique aqui.

 

[317] Na Sudbury Valley, poucos conceitos causaram mais problemas para nós do que “interesse”. O utilizamos o tempo todo em nossa literatura e em nossas conversas diárias. Ele aparece em entrevistas, em conferências para famílias, em palestras públicas sobre a escola, em conversas com os estudantes e entre eles. É o ponto de partida para todas as discussões sobre aprendizagem autoiniciada, que é a base da filosofia educacional da escola. É algo que a escola se compromete a apoiar em cada estudante, o máximo possível.

 

Dada a importância da noção de “interesse”, você pode pensar que nós desenvolvemos um corpo substancial de escritos sobre ela, buscando esclarecer melhor nosso entendimento sobre o assunto. Surpreendentemente, não é bem assim. Com exceção de breves menções e referências casuais, “interesse” não foi o foco de nenhum dos escritos que publicamos. Olhando mais de perto, isso acaba não sendo tão surpreendente assim. A verdade é que levou um tempo para entender bem o que realmente queremos dizer com essa palavra quando a utilizamos em seus diversos contextos escolares; e, tendo finalmente compreendido melhor em nossas cabeças, rapidamente esquecemos o quanto isso foi difícil, e presumimos que agora que nós a entendemos bem, todo mundo parece tê-la compreendido também. Mas como a experiência tem mostrado que essa suposição está bastante equivocada, parece ter chegado a hora de começar a explicar o que queremos dizer quando falamos sobre “interesse”.

 

Eu pensei bem sobre o melhor jeito de fazer isso, e cheguei à conclusão que um discurso quase médico [318] seria provavelmente o mais eficaz. Isso se deve principalmente porque, no estado atual de nossa cultura, adotamos esse tipo de discurso em muitas áreas que não têm relação com a medicina. Saúde e medicina atualmente são tão importantes para nossa sociedade que todos nós já dedicamos muita energia para entender o vocabulário e a metodologia envolvida na apresentação de assuntos médicos. Assim, torna-se conveniente aplicar o mesmo tipo de pensamento a vários assuntos diferentes, como economia, história, até literatura, a fim de nos poupar das consideráveis dificuldades de desenvolver modos completamente novos de discurso para cada área sobre a qual desejamos falar.

 

Desse modo, irei buscar responder as seguintes questões: O que queremos dizer quando falamos que uma pessoa está “interessada” em alguma coisa? (Quais são os sintomas do “interesse”?) Qual é o comportamento adequado que se deve adotar diante de alguém que você deseja ajudar – uma criança ou um estudante, por exemplo – quando ele mostra um “interesse”? (Qual é o tratamento adequado para alguém que apresenta esses sintomas?) Quais são os resultados esperados de uma situação em que uma pessoa que demonstra “interesse” é confrontada por um comportamento adequando por parte das pessoas prestativas que a cercam? (Qual é o prognóstico para uma pessoa que apresenta esses sintomas se adequadamente tratada?) E o que leva à ocorrência de “interesse” em uma pessoa, especialmente nos jovens? (Qual é a causa do “interesse”?)

 

 

Quais são os sintomas do “interesse”?

Para começar, temos que diferenciar entre duas grandes categorias de interesse. A primeira é o “interesse casual”, que aparece quando qualquer coisa nos faz parar para pensar. Eu posso passar direto mil vezes por uma elaborada teia de aranha sem nunca tê-la notado, ou sem nunca ter feito observações sobre ela, seja para mim mesmo, seja para outras pessoas. Então, um dia, eu a vejo e ela prende a minha atenção. “Nossa, que teia de aranha excepcional,” eu digo. Eu demonstrei um interesse casual pela teia, o que pode rapidamente levar a todo tipo de questões e comentários que fluem pela minha mente: qual será o tipo de aranha que a fez? Cadê a aranha? Por que ela escolheu este lugar? As teias de aranha não são elegantes? Como eu posso tirar uma [319] foto disso? Como a teia sobreviveu ao vento e à chuva de ontem à noite? A lista de perguntas possíveis é interminável. Ao nível mais baixo do interesse casual, a mente brinca rapidamente com todo tipo de divagações, sem dificuldade ou esforço visível, tentando prontamente encaixar a teia de aranha – da qual ela acabou de tomar consciência – em seu quadro geral da realidade. De fato, a consciência é a chave para o interesse casual; os dois estão intimamente ligados. O próprio ato de tomar consciência sobre algo envolve apresentar um interesse casual sobre ele. A consciência sobre uma coisa rapidamente leva à consciência de outras coisas, tal como foi ilustrado pelas diversas questões que listei acima, e cada coisa rapidamente se mostra como outra fonte de interesse casual, que pode levar a outra, e outra.

 

Agora, suponhamos que eu estivesse com alguns amigos quando encontrei a teia de aranha, e externalizasse todos os comentários que mencionei, talvez com um tom de admiração em minha voz. Suponhamos que eu parasse por um momento quando isso aconteceu, segurasse meu queixo e olhasse fixamente para a teia; e então, tendo registrado minhas reações, sacudisse minha cabeça com assombro e retornasse à caminhada e à conversa prévia que haviam sido interrompidas pela observação da teia. Suponhamos que tudo isso tivesse acontecido, como acontece com todo mundo mil vezes por dia, de um jeito ou de outro.

 

Qual é a reação que eu deveria esperar de meus amigos? Uma reação tão casual quanto os comentários que fiz. “Sim, é uma teia e tanto,” um poderia dizer; “É realmente incrível que tenha sobrevivido,” outro poderia acrescentar; e assim por diante. Ninguém que estivesse me acompanhando poderia interpretar errado a natureza casual do meu interesse. Ninguém em seu juízo perfeito iria interromper nossa conversa e começar um discurso erudito sobre alguma das perguntas que fiz – digamos, um resumo sobre as várias espécies de aranha e os diferentes tipos de teias que elas tecem. Ninguém iria olhar para mim e dizer: “Essas perguntas que você fez são interessantes, Daniel; quando chegarmos em casa, vamos olhar num livro para ver se podemos encontrar as respostas para elas.”

 

E certamente ninguém seria mal-educado a ponto de transformar minhas expressões de curiosidade casual em um “momento de aprendizagem”. Certamente, todos os envolvidos considerariam deselegante alguém que dissesse para mim: “Que tipo de aranha você acha que é? O que você acha que prende uma teia à árvore? Vamos sacar nossas [320] lentes de aumento para olhar mais de perto.” Tal comportamento seria ridículo e rude, um exemplo claro de paternalismo e, para todos os presentes, obviamente uma resposta totalmente inapropriada para os meus comentários.

 

O interesse casual é nosso modo de explorar ativamente o mundo a nossa volta. Quando o expressamos verbalmente, estamos compartilhando nossa exploração com nossos companheiros, desenvolvendo-a um pouco, talvez entrando em contato com as experiências deles. Um dos meus amigos poderia dizer: “Sabe, eu vi algo assim na floresta tropical da Costa Rica, só que tinha um formato incrivelmente diferente.” Isso, por sua vez, pode dar início a uma discussão sobre a Costa Rica, ou sobre a floresta tropical, ou outras incríveis teias de aranha que outras pessoas tenham visto em outros lugares. Falar sobre o meu interesse casual pode assim dar início a uma rápida exploração mais ampla e extensa do mundo dos meus amigos, na medida em que isso também provoca neles um interesse casual, e os leva a pensar sobre assuntos vagamente relacionados. Neste ponto vocês terão reconhecido o interesse casual como a força motriz por trás das conversas cotidianas, que não são nada além de trocas de interesses casuais entre as pessoas, um puxando o outro, que puxa outro, até que a força da conversa se esvaia.

 

As crianças usam o interesse casual do mesmo jeito que os adultos, e na Sudbury Valley nos comprometemos a responder a elas da mesma maneira que responderíamos aos adultos. Como em várias outras áreas, nossa insistência em garantir às crianças o mesmo respeito que é devido aos adultos em nossa sociedade cria uma separação entre nós e outras formas de escolarização. O maior contraste é apresentado pelas escolas progressistas, que defendem que as expressões de interesse casual das crianças são aberturas que facilitam a administração de informação pelos adultos (especialmente por professores profissionais) às crianças. É o mesmo que aproveitar para empurrar um remédio goela abaixo no momento em que a criança abriu a boca para falar; a justificativa é que o remédio é “bom para a criança”, e a sua boca já estava aberta mesmo... No caso da educação progressista, o remédio é adoçado, assim sua administração é acompanhada por expressões entusiasmadas de “Não é uma delícia?”, “Não é divertido?” por parte dos adultos. Eventualmente, adoçar tudo que se toma passa a ser o jeito preferido, e tanto o adulto quanto a criança esquecem que há outras maneiras de se ingerir.

 

[321] Outra manifestação de interesse casual que merece ser mencionada é a que é acompanhada por desejos. É uma expressão da curiosidade superficial, seguida pelo pensamento de que “seria ótimo seu eu soubesse tudo o que há para saber sobre isso, agora.” Vamos a um país estrangeiro, e desejamos já conhecer seu idioma; vamos a um resort, e desejamos já saber jogar tênis. É como se brincássemos de Walter Mitty,1 fantasiando a nós mesmos como mestres de todo tipo de atividade. Nós raramente, ou mesmo nunca, temos a intenção de dedicar o tempo e o esforço necessários para transformar essas fantasias em realidade; seu principal propósito é aperfeiçoar nossa imagem sobre nosso lugar no mundo. Quando eu digo: “Eu queria esquiar bem,” eu não estou realmente pedindo por horas e horas de aulas de esqui; se eu quisesse, pediria. O que eu estou realmente dizendo é que a fantasia de ser um bom esquiador me agrada, mas que eu percebo que ela nunca irá se realizar a não ser que eu faça o que não estou afim de fazer – ou seja, trabalhar para isso!

 

Na Sudbury Valley, a questão da intervenção externa se torna relevante somente em casos mais sérios de “interesse” que não os casuais. Na discussão a seguir, que irá se concentrar exclusivamente no “interesse sério”, eu irei limitar meu uso da palavra “interesse” a instâncias em que um nível diferente de atenção está sendo demonstrado pela pessoa envolvida. Com isso em mente, eu agora vou listar e discutir os sintomas do “interesse”.

 

Concentração: foco intenso e continuado numa configuração particular de ideias e/ou ações, que não é interrompida abruptamente por distrações externas ou barulhos do ambiente. Frequentemente acompanhada por irritabilidade quando há tentativas de interromper a atenção da pessoa. A pessoa está concentrada no que está fazendo, e não perambulando aleatoriamente pelo ambiente físico ou mental. Suas perguntas vão direto ao ponto, e não ficam transitando por uma ampla gama de assuntos.

 

Perseverança: Aplicação continuada de energia ao assunto, sem se importar com obstáculos ou dificuldades. Há um elemento de obstinação, frequentemente beirando à obsessão, de levar a tarefa adiante, a despeito de qualquer probabilidade contrária, até que se atinja a meta desejada.

 

Intemporalidade: Esquecimento da passagem do tempo, dos ritmos normais da vida, do dia e da noite. Rotinas regulares são ignoradas ou postergadas. Obstáculos impostos à pessoa por meio da intromissão [322] de qualquer fator temporal são muito ofensivos – por exemplo, a exigência do término de uma atividade devido a horários de viagem, ou ao fechamento da sala onde a pessoa está realizando sua atividade.

 

Incansabilidade: Adiamento da necessidade de descansar, ou dormir, até o ponto da completa exaustão, e muitas vezes para além dele. Nas crianças, isso se manifesta em atividade intensa e contínua num nível que arrasaria o funcionamento de um adulto normal – seguida de prostração repentina e total. Todos os mecanismos internos normais que registram cansaço, e que colocam em ação formas de relaxamento, são deixados de lado e ignorados.

 

Autoativação: Autoiniciação de atividades vigorosas direcionadas à conquista de quaisquer objetivos almejados. Há um forte impulso que leva o indivíduo a realizar o projeto com suas próprias forças, a ser o planejador e executor de toda a atividade – a ser o dono da atividade, em outros termos. Não se cogita esperar estímulos externos, nem se dá importância para a presença ou ausência de permissão de outras pessoas para realizar a atividade. (Claro, caso a permissão seja negada, e quem negou tiver o poder de evitar à força que a atividade aconteça, então a situação muda de figura; surge uma crise, acompanhada por raiva, enfrentamento, ressentimento etc.) Na medida em que outras pessoas precisem ser abordadas ou envolvidas no projeto, sua participação é vista como um mal necessário, na melhor das hipóteses, e seu afastamento é buscado o quanto antes.

 

Impaciência: Falta de vontade de adiar o envolvimento com o assunto em questão. Se possível, ele é abordado imediatamente; se isso não puder acontecer, então que seja o mais rápido possível. Outras atividades apresentadas pelas necessidades da vida são apenas toleradas, e são removidas do caminho com a maior rapidez. O objetivo é voltar para a atividade e levá-la adiante.

 

Esses sintomas são claramente reconhecíveis em qualquer pessoa que os apresente. Dentro de bem pouco tempo, normalmente não mais que dez ou quinze minutos, é possível detectar todos eles com exatidão. Um diagnóstico de “interesse” não deve ser feito se um dos sintomas estiver ausente; embora normalmente, se um estiver faltando, vários estarão, já que os sintomas parecer estar intimamente ligados. No entanto, pessoas que apresentem uma lista parcial de sintomas podem ser [323] diagnosticadas como sofrendo de “interesse parcial”, que pode ser mais adequadamente tratado da mesma maneira que o “interesse casual” – ignorando-o totalmente ou deixando-o estar.

 

Qualquer um que passe um tempo na Sudbury Valley vai ver, a qualquer dia, um grande número de casos de interesse entre os estudantes. Isso independe da idade, especialmente em estudantes que não frequentaram outras escolas. Se você incluir em sua amostragem estudantes que passaram um tempo considerável em outros tipos de escola, então a frequência de aparecimento de interesse cai à medida que a idade avança; os estudantes mais velhos, muitos deles exilados de outras escolas, normalmente levam mais tempo para desenvolver um interesse e frequentemente não apresentam nunca casos tão severos quanto os vistos cotidianamente em crianças mais novas.

 

Não há uma classificação simples de tipos de atividades que podem atrair o interesse dos estudantes. Até onde sabemos, com base em vinte e cinco anos de experiência,2 virtualmente qualquer tipo de atividade física ou mental pode se tornar o foco de interesse de um estudante. Nós vimos interesses voltados para o basquete, matemática, futebol, massinha, Lego, skate, física, olaria, biologia, caminhada, escrita, leitura, jogos de guerra, história, desenho, pintura, culinária, esqui, pescaria, karatê, dança, RPG, jogos de computador, programação, administração de empresas, ganhar dinheiro, fotografia – eu poderia continuar essa lista para sempre. Em todos os casos, os estudantes envolvidos apresentaram um conjunto completamente desenvolvido de sintomas.

 

Frequentemente, é motivo de aflição para os visitantes (e mesmo para os próprios estudantes) que o objeto do interesse apresentado pelo estudante não seja algo considerado digno de interesse por profissionais de escolas, pelos membros da família do estudante ou por observadores em geral. Esse é um outro assunto, e já tratamos dele adequadamente em outras de nossas publicações. Minha preocupação aqui é saber em que consiste o interesse.

 

Munido de uma completa sintomatologia, as pessoas na escola, ou outras que estejam relacionadas aos estudantes, podem rapidamente diferenciar entre casos de interesse genuíno que requerem alguma atenção e todos os outros casos de graus menores de interesse, que demandam uma negligência benigna. Eu já mostrei acima que é [324] um sinal de falta de respeito, mesmo um sinal de falta de boas maneiras, intervir em casos que não sejam de interesse real. Se, por alguma razão, a intervenção é solicitada pelo estudante numa situação assim – como, por exemplo, quando um estudante que claramente não está manifestando os sintomas de interesse se aproxima da equipe e diz: “Por favor, faça isso ou aquilo comigo; estou realmente interessado” – então a intervenção é tão contraproducente quanto uma intervenção médica padrão (quer dizer, o fornecimento de remédios ou outros tratamentos) em casos em que um paciente, que claramente não está demonstrando sinais de doença, insiste que está doente e exige tratamento. Em ambos os casos, se a pessoa abordada concorda em intervir, o resultado será prejudicial para o usuário; no mínimo, essa intervenção irá encorajar o solicitante a acreditar em sua doença (ou em sua condição de interessado), e assim destruir sua habilidade de reconhecer por si mesmo a diferença entre a presença e a ausência dos sintomas reais. Crianças que recebem o mesmo tipo de atenção dos adultos quer demonstrem interesse casual, quer demonstrem interesse real em alguma coisa, rapidamente perdem a habilidade de dizer, sozinhas, se estão ou não interessadas. O resultado é quase invariavelmente uma pessoa que, ao sair da infância, “não sabe realmente no que está interessada”.

 

 

Qual é o tratamento adequado para quem apresenta esses sintomas?

Uma vez que tenhamos detectado uma pessoa com um interesse, como devemos reagir? A coisa mais importante que se deve compreender quando tratamos essa questão é que quem está de fora não é automaticamente chamado a intervir em absoluto quando está diante de uma pessoa que apresenta um interesse. Demonstração de interesse per se não implica na necessidade de envolvimento externo.

 

O princípio primordial que governa o trato de pessoas que demonstram interesse é fazer tudo que for possível para permitir que o caso siga seu próprio caminho sem interferência, ou com o mínimo de interferência possível. Demonstrações de interesse são uma parte normal da existência humana. A mente e o corpo foram projetados pela Natureza para lidar com elas, para utilizá-las de maneira que aumente o crescimento e a sobrevivência real. O interesse é uma configuração “normal” de sintomas, muito parecida com [325] a perda dos dentes de leite, ou engravidar e dar à luz, ou passar pelas transformações da puberdade.

 

Além disso, a tendência natural de pessoas com um interesse é evitar, a todo custo, a interferência de outras pessoas ou de fatores ambientais. Acima de tudo, essas pessoas querem uma chance de deixar seus interesses desenvolverem seu potencial livre de amarras, de uma maneira que elas mesmas determinem que é a mais adequada. Qualquer instituição educacional dedicada a apoiar a mais perfeita realização dos objetivos determinados pelos interesses estabelecidos pelos estudantes irá, em primeiro lugar, dedicar-se a sair do caminho dos estudantes enquanto eles cuidam de suas coisas. De fato, uma escola que não fizesse nada além de deixar os estudantes em paz faria mais para ajudar as crianças a se tornar adultos alegres, criativos, ativos, imaginativos e inteligentes do que qualquer escola tradicional em funcionamento hoje.3

 

Há momentos em que o estudante que apresenta um interesse descobre que precisa de algum tipo de apoio do ambiente que o circunda e que ele não consegue descobrir como obter isso sozinho. A própria essência dos sintomas do interesse – especialmente aquele que eu chamei de “perseverança” – garante que em tais circunstâncias o estudante irá fazer com que saibam dessa sua necessidade, e continuará a fazer isso obstinadamente até que a vejam e a satisfaçam de algum modo. Pessoas que trabalham por qualquer período de tempo na Sudbury Valley School como membros da equipe estão bem conscientes da intensidade em que serão importunados e perseguidos por crianças buscando implacavelmente um interesse; e, mais importante, estão igualmente conscientes da incrível intensidade com a qual essas crianças agarram cada pedacinho de ajuda que elas conseguem arrancar dos adultos para promover seu interesse com uma efetividade e uma eficiência que parecem quase milagrosas. Repetidamente, membros da equipe descobrem que uma pequena sugestão, um comentário casual, uma aula particular que dura poucos minutos, podem fazer o impaciente estudante sair correndo alegremente para [326] utilizar qualquer que seja a ajuda que tenha obtido – ajuda cuja real importância escapa completamente ao adulto que a forneceu.

 

A quantidade exata de atenção externa que deve ser adequadamente fornecida para alguém que tem um interesse e que busca por atenção é melhor determinada pelo solicitante, não por quem o atende. Como eu havia dito, uma pessoa com um interesse é naturalmente levada a segui-lo sozinha, usando seu próprio sistema interno de orientação para guia-lo em que direção seguir. Qualquer pedido por ajuda externa é um desvio do melhor caminho que ela preferiria trilhar; e quanto mais rápido puder voltar à busca autodirigida de seu interesse, maior será a sua satisfação, e maior será o benefício extraído do desvio. Não há necessidade de se preocupar se o solicitante conseguiu ou não o suficiente daquilo que desejava. Ninguém é melhor que ele para julgar isso, e ele irá voltar para ajuda adicional se achar necessário.

 

Tudo que eu disse sobre crianças se aplica igualmente a adultos, claro. Não há diferença entre adultos demonstrando um interesse e crianças demonstrando um interesse. Se nós adultos pensarmos naquelas situações em que estivemos absorvidos por alguma busca, iremos reconhecer a validade disso que estou falando sobre as condições sob as quais a ajuda externa é desejável. Apenas pense na última vez em que você foi arrebatado por um desejo apaixonado de fazer algo – aprender a esquiar, construir uma maquete, começar uma coleção, pintar um quadro, revelar fotografias, aprender a consertar motos, tricotar um suéter, ler um livro arrebatador. Independente da situação, tente se lembrar honestamente por que, como e quando você solicitou a participação de outra pessoa na busca, e veja se aquilo que eu disse não acende uma luzinha.

 

Quando falo sobre intervenção externa, não estou pensando, claro, sobre conseguir a participação cooperativa de outra pessoa no projeto. Essa é uma questão completamente diferente, e está realmente fora do escopo deste ensaio. Há momentos em que o interesse de alguém é melhor favorecido pelo engajamento numa busca conjunta com outra pessoa que compartilhe o interesse daquele momento e que seja igualmente motivada a buscá-lo. Em tais casos, temos o fenômeno do interesse de grupo que, devido à sinergia do esforço cooperativo, pode apresentar ainda mais vivamente os sintomas do interesse individual. A resposta [327] adequada ao interesse de grupo por parte dos observadores não é, entretanto, diferente da resposta que deve ser dada ao interesse individual.

 

Ambientes escolares tradicionais – incluindo os das chamadas “escolas alternativas” – têm dificuldade em reconhecer as manifestações do interesse, e não têm nenhum mecanismo para responder adequadamente a elas. Tais escolas são normalmente incapazes de sair do caminho de seus estudantes, e assim se veem interferindo destrutivamente nas buscas que interessam a eles. Restrições de horário, de local, materiais e sociais colocam obstáculos insuperáveis nos caminhos dos estudantes com um interesse. Nem existe um mecanismo de resposta adequada dos adultos, que tem que ser cuidadosamente adaptada ao pedido. Em todos esses ambientes escolares, os adultos têm algum tipo de meio ritualizado de interação com os estudantes, dirigido por um currículo ou uma agenda geral, e não há nenhuma maneira confortável de esquecer esses padrões pedagógicos para focar na natureza imediata dos pedidos dos estudantes.

 

 

Qual é o prognóstico para alguém que apresenta os sintomas de “interesse” caso seja adequadamente tratado?

 

Considere uma criança que cresceu num ambiente em que as seguintes condições foram satisfeitas de maneira continuada:

(a) Suas diversas manifestações de interesse casual foram acolhidas casualmente, frequentemente de maneira indireta, e às vezes com um silêncio cortês. Em outras palavras, as pessoas ao seu redor trataram essas manifestações pelo que elas são: expressões verbais de simples curiosidade, cujo significado só pode ser realmente conhecido pela própria criança, e que portanto não precisa de nenhuma ação por parte dos ouvintes além de uma aceitação respeitosa.

(b) Suas manifestações de interesse real (as quais eu chamei somente de “interesse”) puderam se desenvolver, sem obstáculos externos, até o máximo de suas possibilidades, de modo que elas se realizem a ponto de satisfazer à criança.

(c) Seus pedidos por intervenção externa específica, enquanto perseguem um interesse, são satisfeitas de uma forma que se aproxima o máximo possível [328] daquilo que ela realmente está pedindo – nem mais, nem menos – de acordo com a sua própria avaliação de sua necessidade, e não de acordo com a avaliação de outra pessoa.

 

De uma criança que cresce assim, pode-se esperar que exiba certo número de traços de personalidade como um adulto. Por meio do hábito e de muita prática, ela irá se tornar confortável com seu próprio juízo a respeito de seus próprios interesses. Ela continuará a ter iniciativa, como a Natureza a projetou para ser, desde que nada intervenha durante seu amadurecimento para destruir essa característica inata. Ela será uma especialista em desenvolver seus próprios métodos de busca por seus interesses de modo que alcance a maior satisfação interna possível. Ela será uma pessoa com um profundo senso de autoconfiança, originado de uma longa experiência navegando por entre os bancos de areia que cercam todo objetivo humano. Ela terá elevada autoestima, devido ao fato de ser rodeada de pessoas respeitosas que não trabalharam para enfraquecer a autoestima com a qual ela nasceu. Ela sentirá que sua vida é, e foi, digna de ser vivida, pois lhe foi garantida liberdade durante sua infância, e as pessoas ao seu redor legitimaram seus julgamentos do que vale ou não a pena.

 

Tal prognóstico, que é totalmente corroborado pela experiência da Sudbury Valley School, aqueceria o coração de muitos pais que contemplam o que o futuro reserva para seus filhos. Para esses pais, a Sudbury Valley (e qualquer outra escola que opere de acordo com os mesmos princípios) oferece um ambiente que aumenta as chances da criança crescer para ser o tipo de pessoa que eu descrevi no parágrafo anterior.

 

O prognóstico é um pouco menos seguro para pessoas que tiveram suas demonstrações de interesse atendidas de maneiras diferentes das que foram descritas neste ensaio, e que depois entraram em um ambiente (tal como a Sudbury Valley, ou outro ambiente real de natureza semelhante) que muda para as respostas que eu descrevi. Essas pessoas precisam dar uma guinada para tentar reajustar os padrões de comportamento que desenvolveram ao longo do tempo, e que tinham como objetivo se ajustar às inadequadas reações que suas expressões de diferentes níveis de interesse receberam no passado. Algumas pessoas são mais bem-sucedidas que outras na realização dessa readaptação. Essas situações são [329] comuns na medicina tradicional; por exemplo, pessoas que se acostumaram a consumir grandes quantidades de remédios receitados para o tratamento de todo tipo de sintoma médico frequentemente acham difícil, ou mesmo impossível, mudar de rumo quando um médico mais holístico lhes fala que seu corpo e sua mente poderiam estar num equilíbrio duradouro mais saudável e estável, se elas abandonassem os remédios e adotassem um estilo de vida mais saudável. Pessoas que cresceram com tal abordagem são mais bem-sucedidas; pessoas que chegaram a isso mais velhas alcançam níveis variáveis de sucesso em fazer a transição.

 

Ainda assim, é melhor tentar mudar para um ambiente mais saudável – com a expectativa de um sucesso parcial ou completo – do que não tentar nada.

 

 

Qual é a causa do “interesse”?

Por que as pessoas ficam interessados por alguma coisa? Investigar essa questão é importante, pois ela está na base de qualquer abordagem sobre o interesse, como veremos agora.

 

A Natureza projetou o animal humano – como projetou todas as espécies bem-sucedidas – de modo a promover a sua sobrevivência. A menos que os mecanismos de sobrevivência sejam constituídos dentro da própria estrutura da espécie, eles desaparecem rapidamente. Agora, já que a raça humana não projetou a si mesma, é impossível para nós sabermos, com certeza, quais mecanismos de sobrevivência trazemos conosco. O melhor que podemos fazer é especular, examinando de perto quais padrões de comportamento são universais entre os seres humanos e tentando decidir quais padrões são mais importantes.

 

Desde tempos remotos, indivíduos pensantes notaram a presença da curiosidade, e de interesses guiados pela curiosidade, em todas as pessoas. Isso se tornou amplamente aceito como o mecanismo-chave de sobrevivência das espécies, que permite a cada indivíduo sondar seu ambiente para nele sobreviver efetivamente. O fato de a curiosidade e o interesse originarem-se espontaneamente de dentro da pessoa, desde o nascimento, e existirem o tempo todo, independentemente do ambiente, torna provável que a Natureza tenha provido cada indivíduo com a habilidade de formular princípios internos de orientação que impulsionam suas expressões de interesse em direções que ele [330] pensa serem mais benéficas para a sua sobrevivência. O fato de ainda haver pessoas habitando a Terra nos leva a concluir que as habilidades inatas individuais que ajudam o indivíduo a decidir quais interesses são os melhores para sua sobrevivência são, de modo geral, adequadas para a tarefa.

 

Essas observações me convenceram há tempos de que há evidências evolucionárias sólidas para a afirmação segundo a qual cada indivíduo, desde o nascimento, é naturalmente capaz de desenvolver a partir de dentro os interesses que melhor atentem às suas necessidades. Não encontrei nenhuma evidência, seja em minha experiência de vida, seja nos relatos de experiências de outras pessoas, que me levasse a acreditar que exista qualquer outra pessoa ou autoridade externa que saiba melhor que o próprio indivíduo quais interesses são os melhores para atender suas necessidades de sobrevivência.

 

Essa visão do que leva uma pessoa a demonstrar interesses tem sido a base para o material que apresentei no corpo deste ensaio. Alguém que tenha outra visão sobre a origem do interesse poderia muito bem compor uma imagem completamente diferente sobre a natureza do interesse, seus sintomas, resposta adequada e prognóstico. Assim, por exemplo, uma pessoa que pensa que o profundo interesse de uma criança em ver TV revela a manifestação de alguma desordem e vai contra aquilo em que a criança deveria estar interessada, não irá concordar com minha visão segundo a qual tal interesse está satisfazendo as necessidades autodeterminadas dessa criança de uma maneira que um observador externo não pode nem deve julgar, e que deveria ser atendido da mesma forma que um interesse em, digamos, ciência ou matemática! Esse ponto não pode ser realmente debatido, pois as diferentes visões se originam também de diferentes compreensões de toda a fenomenologia do interesse e, em última instância, da natureza humana. Não posso provar que minha compreensão está “certa”, ou mesmo que seja “melhor” do que a de qualquer outra pessoa – não mais do que um médico pode provar que sua visão do animal humano é superior à do curandeiro xamã ou outro curandeiro “alternativo” ou mesmo à de outro médico que siga uma teoria médica diferente.

 

Tudo o que posso fazer é apresentar minha compreensão para torná-la acessível a qualquer curiosidade ou interesse que possam ter sobre ela...

 

 

NOTAS

1 Personagem do conto de James Thurber, “A vida secreta de Walter Mitty”. Sua principal característica é fantasiar o tempo todo sobre sua própria vida. (NT).

 

2 A Sudbury Valley School foi fundada em 1968. (NT).

 

3 Ver GREENBERG, Hanna. “What Children Don't Learn at SVS”. In: GREENBERG, Daniel; SADOFSKY, Mimsy (ed). The Sudbury Valley School Experience, 3 ed. Framingham: Sudbury Valley School Press, 1992, p. 17 et seq; e “The Art of Doing Nothing”, p. 81 et seq (disponível em português em: http://goo.gl/k8fyzH).

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