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Qual é o papel dos pais?

April 9, 2015

Imagem: arquivo da Sudbury Valley School

 

Qual é papel dos pais?

 

GREENBERG, Daniel. What is the Role of Parents? In: ______. A Clearer View: new insights into de Sudbury School Model – The thirtieth anniversary lectures. Framingham: Sudbury Valley School Press, 2000. p. 49-71.

 

Tradução de Luís Gustavo Guadalupe Silveira

 

[Para baixar a versão em pdf, clique aqui]

 

[49] Hoje, eu gostaria de falar sobre o que aprendemos sobre esta pergunta: “Qual é o papel dos pais?” – uma pergunta que muitos de nós ouvimos na escola, em vários contextos diferentes.

Deixem-me voltar no tempo para contar-lhes o que estávamos pensando quando fundamos a escola. A questão sobre os pais e seu papel na escola é tratada no Estatuto da Associação Escolar, logo ela é obviamente um assunto ao qual havíamos dado atenção, embora no contexto bastante restrito do papel legal dos pais na estrutura organizacional da escola. Ao menos para mim, um dos motivos pelos quais foi dada voz aos pais foi minha reação ao livro de A. S. Neill, Summerhill. Nos anos 1960, quando o livro apareceu pela primeira vez, ele fez muito barulho nos Estados Unidos. Ele influenciou uma quantidade impressionante de pessoas e certamente teve um tremendo efeito sobre nós. [50] Uma das coisas sobre as quais Neill trata repetidamente é sua antipatia pelos pais. Para ele, os pais são “o inimigo”, uma posição que ele assume a partir da perspectiva terapêutica. Reichiano convicto e estudante dedicado da psicanálise, acreditava firmemente que os pais eram a fonte da maior parte dos problemas do mundo. Em consonância com essa visão, ele organizou sua escola de um modo que era abertamente hostil aos pais. Ele não queria que os pais tivessem qualquer coisa a ver com Summerhill. Eles não somente não tinham voz, o que seria a última coisa que teria passado por sua cabeça, como Neill não os queria por perto de jeito nenhum. Se você quisesse matricular seu filho, e escrevesse pedindo para visitar a escola, a resposta comum seria: “Envie seu filho, mas fique em casa.”

Na época, sentimos de modo instintivo, sem pensar muito profundamente, que essa não era a situação que nós queríamos. Parte do motivo era que a maioria dos fundadores eram pais. Independente do papel que iríamos ter diretamente na escola, uma coisa de que tínhamos certeza era que desejávamos nos envolver em fundar uma escola na qual pudéssemos estar, de alguma forma, envolvidos, em que não fossemos “o inimigo”. Foi isso que levou ao conceito da Assembleia Geral no primeiro Estatuto, um conceito que manteve seu significado original até hoje. A Assembleia Geral deveria ser o corpo escolar [51] formulador de políticas, e iria incluir todos aqueles que tinham um interesse pessoal na escola – membros da equipe, Conselheiros, membros públicos e também, por fim, os pais. Isso era importante. Significava que os pais não contribuíam somente com a “receita”, mas podiam votar, como todos os outros. Para nós, isso foi um grande passo.

Mas isso ainda não nos dá muita noção do que é o papel dos pais na escola. O voto é somente uma pequena parte desse papel. Nós pelejamos com isso nos anos iniciais, mas o assunto não era prioridade. Não havia muita gente preocupada. Então, por volta de quinze anos atrás, começamos a enfrentar um problema. Havia alguns pais que, por um motivo ou outro, começaram a andar pela escola. Isso fez com que alguns estudantes se sentissem desconfortáveis. Não havia nada de maldoso na situação. A qualquer dia, você podia encontrar um pai na sala de costura,1 sentado e lendo inocentemente, e todos na sala se sentiam estranhos porque havia um pai sentado ali. Aquela pessoa não estava fazendo nada de ruim, não estava intervindo, não estava criticando ninguém. Só estava naquele espaço, o que era suficiente para causar desconforto em algumas pessoas.

Assim, ficou claro que as crianças não queriam ter pais simplesmente zanzando pela escola. Elas não queriam nenhum adulto, não somente os pais, regularmente na escola a menos que tivesse sido convidado pela Assembleia Escolar. Isso começou a nos fazer pensar sobre [52] a questão dos pais na comunidade. Havíamos dado aos pais um papel central na Assembleia Geral. Havíamos deixado claro, desde o começo, que não havia nenhum problema em os pais entrarem quando traziam seus filhos – entrar, conversar um pouco com as crianças, com a equipe ou uns com os outros, antes de ir embora. O que mais era esperado pelos pais, ou esperado deles, na comunidade escolar? Percebemos que deveríamos dedicar muito mais atenção a isso.

Quanto mais pensávamos na questão, mais claro ficava que o problema real, acima de tudo, era o papel dos pais na vida, mais do que somente o seu papel na escola. Chegamos à conclusão que, para compreender o que os pais deveriam fazer na escola, deveríamos ter uma visão muito mais clara do que os pais deveriam fazer numa família. Se nós não entendêssemos seu papel na vida, nós nunca iríamos entender seu papel na escola.2

Quando você para para pensar nisso, percebe logo de cara que o papel dos pais é problemático, até mesmo paradoxal. Isso porque, biologicamente, os pais são [53] os agentes da Natureza responsáveis por fomentar a transição da criança da dependência para a independência. Basicamente, o objetivo final é a independência da criança. A espécie não iria sobreviver se cada nova geração não conseguisse se tornar independente da geração anterior. Você nasce, você tem uma mãe e um pai, mas, fundamentalmente, seu objetivo final é deixá-los.

Agora, o problema e o paradoxo aparecem porque os meios para alcançar esse objetivo envolvem um estágio inicial de dependência. Isso é inevitável, pois a criança, quando nasce, é completamente dependente, e por muitos anos ela continua a ter um grau considerável de dependência. Desde o começo, você está numa situação difícil e paradoxal – uma situação na qual estamos aqui como pais para apoiar nossas crianças dependentes em direção à independência. O objetivo final é a independência; os meios envolvem dependência. Esses são dois conceitos contraditórios que têm que coexistir na relação entre pais e filhos desde o começo, o que mostra já de saída que você está em apuros, que o conceito de criação não dá respostas claras para suas perguntas, pois qualquer conceito enraizado num paradoxo inerentemente contraditório irá levar a respostas contraditórias, conflitantes, difíceis e subjetivas.

Não consigo enfatizar suficientemente o quanto essa dependência inicial é crucial para o relacionamento. Ela deixa uma marca [54] indelével na relação entre a criança e seus pais. Nos primeiros dias da vida da criança, sua própria sobrevivência depende que aprenda a ler os sinais sutis de aprovação e desaprovação dos pais. Simples assim. As crianças têm que descobrir, praticamente desde o momento do nascimento, como elas vão conseguir que suas necessidades sejam satisfeitas por seus pais nessa relação de dependência. Claro, não estou falando de descobrir cognitivamente, com palavras e formulações lógicas. Estou falando de descobrir isso numa situação da vida real, sentindo. Não há ninguém no mundo que seja mais hipersensível às emoções de outra pessoa do que uma criança em relação aos seus pais. Nossos filhos nos leem como ninguém mais é capaz de fazer – melhor que nossos cônjuges, melhor que nossos melhores amigos. Eles nos leem de maneiras que nós não conseguimos nem começar a entender, e respondem emocionalmente, nos mais profundos níveis da sobrevivência, a cada pequena nuance de nossas emoções, não somente àquelas que mostramos em relação a deles, mas também às que exibimos com respeito a outras pessoas. As crianças simplesmente não conseguiriam sobreviver se não possuíssem essa habilidade inata.

O fato é que nem os pais nem a criança podem apagar ou esquecer essa fase inicial de dependência. Ela fica com a gente a vida toda, tanto com os pais quanto com as crianças. Ela colore a relação para sempre, mesmo quando os filhos se tornam adultos. Os desejos e visões de nossos pais, sejam favoráveis ou contrários, sempre têm um peso diferente para nós do que aqueles de qualquer outro adulto. Eu [55] sei como me sentia na presença do meu pai, que morreu aos 91 anos. Lá estava eu, com cinquenta e tantos anos, e ainda era seu “guri”. Não havia como eu ser qualquer outra coisa. Não faz a menor diferença se temos nossa própria família, se somos bem-sucedidos na vida – quando estamos na presença de nossos pais, não interessa o quanto tenhamos declarado nossa independência, não interessa se somos próximos ou distantes deles, se os amamos ou os detestamos, essa hipersensitividade ao modo como eles reagem continua ali.

Há ainda um problema a mais: ainda que o objetivo final dessa relação seja a independência para a criança, em ambos os lados do relacionamento há um anseio residual por manter o estado de dependência. Os pais anseiam que a dependência continue só mais um pouco pois uma criança independente representa um sentimento de perda, de partida, de tristeza. Não estou falando de um desejo consciente de manter a criança na dependência, mas de algo que vem de dentro. “Eu quero que elas sejam independentes, mas sei que quando elas partirem, sentirei saudade.” É somente um leve anseio por dependência, mas que sabota a maneira como nos comportamos diante de nossos filhos. Na criança, há um anseio residual também, pois é gostoso ser cuidado: “Claro, quero ser independente. Quero sair para o mundo. Quero me sustentar. Quero ter meu próprio apartamento. Quero ter meu próprio carro.” Todos [56] afirmam isso sem piscar, mas ainda assim não se importam quando você lava suas roupas ou quando prepara uma boa refeição para eles ou toma conta de pequenas coisas. É gostoso ser cuidado. É aquele pequeno anseio residual por dependência que fica em cada um de nós enquanto crescemos.

Realmente, isso pode ser perigoso, pois esse anseio por dependência, caso não seja satisfeito com os pais, pode ser transferido de forma não muito saudável para um companheiro, ou uma seita, ou uma comunidade ou alguma outra situação na qual você nunca abandona esse sentimento e se torna um adulto dependente.

Para resumir, o desenvolvimento da independência numa criança tem que enfrentar não somente os problemas inerentes da dependência, mas também a relutância de pais e filhos em superar essa dependência. Apesar de tudo isso, nosso papel como pais é de alguma forma facilitar o caminho de nossos filhos em direção à independência. Infelizmente, isso significa que há ocasiões em que teremos que interferir. A intervenção é necessária pois facilitar o caminho é uma tarefa ativa, não passiva. Ajudar uma criança a se tornar independente não é simplesmente chegar e dizer: “Você é independente.” É fazer toda uma série de ações que tornarão possível que a criança cresça de acordo com suas inclinações interiores. Assim, até mesmo quando estamos preparando a criança para a independência, estamos constantemente intervindo na vida da criança, e isso é parte [57] importante da contradição sobre a qual estou falando.

Existem, falando de modo geral, dois tipos de intervenção. Primeiro, há as intervenções nas grandes decisões. Essas são absolutamente inevitáveis; são as decisões da vida responsáveis pela sobrevivência da família como um todo. Por exemplo, “Onde vamos morar? Como vou ganhar a vida?” Essas decisões são tomadas observando-se as necessidades globais de sobrevivência da família, e elas obviamente têm grande impacto para as crianças. Se eu cresço numa cidade e então descubro que, para que possa continuar alimentando meus filhos, tenho que me mudar para outra cidade, isso significa ter que afastar as crianças de seus amigos, de seu ambiente, da casa em que elas têm vivido confortavelmente, etc. Essas são consequências dolorosas para uma criança. Como adultos, sabemos a razão por estarmos fazendo isso, e pode ser difícil para nós também ter que deixar nossos amigos e nossa comunidade, etc.; mas nós sabemos por que estamos fazendo isso. Para as crianças, não importa o quanto explicamos para elas, não importa o quão crescidas elas sejam, essa é uma intervenção dolorosa que afeta profundamente suas vidas e que elas não sentem ser necessária. “Ganhar a vida” é algo que você não consegue explicar para uma criança num nível emocional, pois as crianças não são responsáveis por alimentar a si mesmas. Elas não têm dúvida de que seus pais irão alimentá-las. “Por que nós temos que [58] nos mudar? Eu entendo que temos que comer – vocês supostamente têm que me alimentar. Mas por que nós temos que nos mudar?” Emocionalmente, essas ideias não se encaixam.

Grandes intervenções envolvem decisões que temos que fazer. Esperamos que as crianças de alguma forma sobrevivam a elas; na maioria das vezes, elas o fazem. Nós realmente não podemos ajudar muito dando explicações. Basicamente, é este o caso: “É assim que é. É aqui que vamos ter que morar. Sinto muito se isso magoa vocês. Tenho certeza de que irão fazer novos amigos. Tenho certeza de que irão conhecer outras pessoas.”

Mas o caminho para a independência se torna mais fácil se a intervenção nas menores decisões for minimizada. É aqui que todos nós mais pelejamos: primeiro, diferenciando entre as grandes e as pequenas decisões, das quais podemos abrir mão; e, segundo, realmente abrindo mão quando reconhecemos a diferença entre elas. Roupas, por exemplo. Esse é um exemplo clássico. A verdade é que a escolha das roupas que nossos filhos usam não é a maior intervenção que temos que fazer para suavizar seu caminho rumo à independência. Desde que eles tenham, fisicamente, o suficiente para se sentirem confortáveis em qualquer época, de modo que eles não sintam frio e que eles não se sintam desconfortáveis, temos que reconhecer que está tudo bem. Essa é a realidade. Nenhum de nós, ouso dizer, consegue viver de acordo com essa realidade. Sempre pensamos que podemos julgar melhor que nossos filhos se eles estão com frio ou não. Às vezes, quando lidamos com essas decisões menores, as convertemos, em nossas [59] mentes – pois estamos lutando com elas – em grandes decisões, para assim justificar nossa intervenção. Dizemos: “Eles vão se resfriar. Vão pegar pneumonia. Vão ficar doentes.” Transformamos a coisa numa questão de sobrevivência. Ainda que todas as evidências disponíveis indiquem que as crianças autorizadas a seguir os próprios instintos com relação às roupas não ficam mais doentes do que as crianças que não podem fazer isso. Mas as evidências não têm nada a ver com aquilo que sentimos.

Comida é outro exemplo. Comida é um bicho-papão e tanto. Estamos muito seguros de que nossos filhos não irão sobreviver se não os obrigarmos a comer as comidas “certas”. Tivemos uma criança na escola, trinta anos atrás, que não comia praticamente nada, só Poptarts.3 Dia após dia, ano após ano. É impossível entender biologicamente o que acontecia ali, mas a criança cresceu. O mais engraçado disso tudo é que, enquanto outras crianças ficavam doentes a torto e a direito com gripes, resfriados e coisas do tipo ao longo do inverno, aquela criança não adoecia nunca. Eu não sei o que isso prova. Certamente, na maioria das vezes, exceto nos casos mais extremos de desordens alimentares, as quais eu certamente não subestimo, que comida uma criança come, ou quando ela come, é uma intervenção pequena. Se todos nós jantamos juntos em família é uma decisão dos pais, não necessariamente ligada à sobrevivência, não necessariamente interessante para as crianças em todas as idades. É uma decisão importante o bastante para justificar a intervenção enquanto facilitamos o caminho das crianças rumo à independência? Ou é uma das pequenas que podemos [60] deixar para lá e dizer: “Isso faz parte do seu processo de se tornar independente. Deixe-as em paz.”

A lista pode continuar infinitamente. Essas são as questões com as quais batalhamos, mas enquanto pelejamos com elas, se estivermos sendo honestos ao nosso papel como pais, temos que nos perguntar constantemente: “Isso é algo que necessariamente demanda intervenção?” – pois toda intervenção é um passo para longe da independência. Cada um de nós irá responder de maneira diferente. Eu não irei julgar suas respostas, assim como não desejo que julguem as minhas. Mas o que deveria ser igual para todos nós é que devemos fazer aquela pergunta. É quando paramos de fazê-la que começamos a prejudicar o papel que nos cabe como pais – facilitar o caminho para a transição da criança rumo à independência.

O ato de interferir diferencia o papel dos pais do papel de todos os outros adultos de uma maneira funcional. Ninguém mais em nossa sociedade tem o direito de interferir. Como pais, temos esse direito. De maneira distinta, em nossa cultura bastante individualista, desenvolvemos a tradicional postura de não interferir na forma como os outros criam seus filhos. Se eu vejo um pai fazendo algo que, em minha opinião, é uma prática de criação claramente ruim, tenho que guardar minha opinião para mim mesmo. Posso compartilhá-la com minha esposa; podemos concordar sobre o assunto em casa, na intimidade de nosso quarto. Mas se eu criticar [61] o pai diretamente, terei passado dos limites. Terei ultrapassado uma fronteira social.

Outra diferença profunda entre os pais e todos os outros adultos é a questão do amor incondicional. Você não vai consegui-lo em nenhum outro lugar, somente na família. Um adulto pode passar a conversa em qualquer criança e pode até, quem sabe, estar sendo sincero: “Eu amo você. É como se fosse meu filho. Me sinto tão próximo de você como se fossemos da mesma família.” Muitos de nós já dissemos isso para as crianças, de coração. Mas nenhuma criança pode ser enganada. Toda criança sabe que, quando você diz isso, você está sendo sincero só até certo ponto, e geralmente todas elas sabem exatamente onde fica esse ponto.

Estamos quase prontos para responder à questão mais específica: qual é o papel dos pais na escola? Mas primeiro temos que responder a mais uma pergunta: Qual é o papel da escola? Curiosamente, encontramos uma semelhança com o papel dos pais. O papel da escola numa sociedade, em geral, é criar um ambiente em que as crianças possam se preparar para se tornar adultas. Em outras palavras, a escola é uma instituição comunitária estabelecida para ajudar a preparar as crianças para serem membros independentes da comunidade. Isso significa que uma escola tem que ser um lugar onde as crianças possam desenvolver quaisquer habilidades necessárias para se adaptar à sociedade adulta – habilidades cognitivas e técnicas para se tornarem economicamente independentes, e habilidades sociais para participar na sociedade adulta.

[62] Na Sudbury Valley, concluímos que nossa maneira de fazer isso é dar às crianças uma experiência prática e participativa de independência desde o começo. Não um conjunto de habilidades que podem (ou não) ajudá-las a se tornar independes mais tarde, mas habilidades práticas e participativas para a independência agora, com a ideia de que as crianças vão se tornar melhores à medida que crescem, pois é isso que elas querem fazer. Nós também damos a elas a oportunidade de usufruir a experiência prática e participativa de formar relacionamentos reais. Deixamos que elas descubram e experimentem, desde cedo, como lidar com outras crianças e com adultos. Nós não as guiamos, ou as agrupamos, ou as ajudamos como as outras escolas fazem. Nós dizemos: “Você tem que fazer isso por conta própria, por meio da experiência prática.”

Essa é uma missão que levamos muito a sério. Ela pode ser muito difícil para os pais. Eles representam o amor incondicional. É doloroso para os pais quando a criança volta para casa e fala de todas as frustrações que tiveram ao longo do dia: “Aquela criança foi má comigo. Aquela outra não queria brincar comigo. Eu não tenho amigos.” Para a escola, isso é parte importante da realidade do mundo. Os adultos têm que dar duro para fazer amigos. Adultos têm que aprender a viver com o fato de que há inimigos por aí que nos desejam mal. Adultos têm que descobrir quem são seus amigos e quem são [63] seus desafetos, e como lidar com ambos. A Sudbury Valley sempre disse: “Ofereça experiência prática e participativa desse trabalho duro às crianças desde o primeiro dia. É a melhor, mais rápida, mais fácil e mais duradoura maneira de aprender.”

Nós também acreditamos que preparar as crianças para serem independentes na sociedade significa dar a elas experiência prática com a democracia e tem a ver com estar em um lugar em que as decisões são tomadas pela comunidade. Adultos têm que viver com decisões de que não gostam, todos os dias, e têm que perceber que parte da beleza de viver em uma comunidade democrática é engolir sua insatisfação quando as coisas não saem do seu jeito.

Agora estamos em posição de compreender por que, falando de modo geral, os pais não fazem parte do contexto diário da escola. Não é porque os pais são maus. Pelo contrário. É porque os pais, enquanto tais, têm tarefas de criação inerentes que são diferentes das tarefas inerentes que nossa escola estabeleceu para si própria. O papel dos pais tende a entrar em conflito com o papel de uma escola que é dedicada, antes de tudo, a oferecer experiência prática de independência individual, de tomadas democráticas de decisão, de desenvolver seu próprio jeito de se relacionar socialmente.

O que isso tem a ver com pais que fazem parte da equipe na escola? O problema de pais que estão na equipe tem sido espinhoso desde o nosso primeiro dia de funcionamento. Eu fui um, muitos dos [64] fundadores também foram, e temos muitas pessoas na equipe atualmente que são pais. Todos eles irão dizer a mesma coisa: fazer parte da equipe não é fácil para os pais, e frequentemente não é divertido para as crianças. Se houvesse uma segunda escola Sudbury em outra cidade próxima o bastante, teríamos mandado nossos filhos para lá com satisfação. Pais que são membros da equipe precisam ter uma grande quantidade de autocontrole e disciplina para coexistir em nossa escola e sempre acontece algum problema.

Vou dar um exemplo simples com o qual todo pai pode se identificar. É preciso ter autocontrole quando se trata de assuntos do Comitê de Justiça. Uma vez, nosso filho mais velho teve o registro de pessoa com o maior número de acusações. Ele era barulhento por natureza. Ele era a definição de “barulhento” e se queixavam dele o tempo todo. Como pais, tínhamos que ser absolutamente claros em nossas mentes que o processo judicial tinha que seguir seu rumo e que não tínhamos nada a ver com ele. Não podíamos conversar com ninguém do Comitê Judicial, e não podíamos interferir de maneira alguma. Nossa atitude com relação aos nossos filhos na escola tinha que ser: “Fez a fama, deita na cama.4 O CJ tem que lidar com isso. É problema dele.” Para pais amorosos, isso requer muita autodisciplina. Para algumas pessoas na equipe, isso nunca foi fácil. Para outras, era mais tranquilo. Mas sempre representava um desafio.

Do ponto de vista da criança, também não era divertido. Ela consegue ficar fora da nossa vista. Essa parte nem é [65] tão difícil assim. Mesmo sendo uma escola pequena, é impressionante como é fácil para as pessoas ficarem fora da vista de quem elas não querem proximidade. Francamente, posso dizer que, durante todos os anos em que nossos três filhos estiveram na escola, eu não os via muito durante o dia. Imagino que eles cuidaram disso mais do que eu. Eu não os evitava conscientemente, mas aposto que eles sim, o que teria feito sentido. Eles não podiam lutar contra o fato de seu pai ser parte da equipe. Eles não podiam evitar ouvir as coisas desagradáveis que inevitavelmente são ditas sobre qualquer um na escola, criança ou adulto, mas fatalmente sobre a equipe em determinados momentos, especialmente quando “aquele desgraçado prestou queixa contra mim pela quinta vez” e “aquele desgraçado” calha de ser o seu pai! É difícil.

Contudo, parece ser verdade que você não consegue realmente começar uma escola e, provavelmente, não consegue mantê-la funcionando a menos que haja um número de pessoas na equipe que sejam tão absolutamente comprometidas com a escola, pois seus filhos estão lá, que irão fazer das tripas coração5 para que ela continue existindo. Assim, é uma situação desconfortável, mas aparentemente necessária no atual estágio de desenvolvimento das escolas Sudbury, que haja na equipe pelo menos algumas pessoas tão comprometidas com a sobrevivência da escola como os pais tendem a ser. O que protege a comunidade escolar é o fato de a equipe ser eleita, sem posse por prazo indeterminado, todo ano, e mais de um pai/membro da equipe foi mandado [66] embora ao longo dos anos, enquanto seus filhos permaneceram na escola. Assim vocês podem ver como é difícil lidar com um problema que está em toda parte.

Deixem-me divagar um pouco para esclarecer meus argumentos com outro exemplo. Ouvimos muito hoje em dia sobre homeschooling.6 Há um subgrupo de homeschoolers que se autointitulam “unschoolers”,7 muitos dos quais alegam estar educando seus filhos de uma maneira virtualmente idêntica à nossa na Sudbury Valley. São essas pessoas que dizem honestamente, e sentem honestamente: “Acreditamos em dar aos nossos filhos a liberdade para fazer o que eles quiserem, e não intervir em suas atividades. Se eles quiserem brincar o dia inteiro, eles podem brincar o dia todo. O que quer que eles queiram fazer está bom para nós. Estamos aqui somente para apoiar seus desejos.” Frequentemente, elas nos escrevem e dizem: “Somos iguais à Sudbury Valley.”

Mas é, contudo, a complexidade do papel dos pais que está no cerne da diferença entre nós e qualquer forma de unschooling. Pessoas falam de todo tipo de problemas com o unschooling, e há debates acalorados sobre isso. Por exemplo, há a questão de quanto o unschooling pode fornecer um bom mecanismo de socialização para as crianças, quando elas passam a maior parte do tempo em casa. Certamente, há situações em que pais de unschoolers se reúnem algumas vezes por semana nas casas uns dos outros para proporcionar socialização. Então há a questão da falta de um ambiente [67] democrático. Não é de forma alguma possível que o unschooling possa oferecer uma vivência democrática na prática, pois os pais estão lá o tempo todo e estão tomando, diariamente, todas as decisões-chave que tem que ser tomadas.

Há também o problema da tendência dos pais, por mais que eles neguem isso, de proteger seus filhos. Em situações de unschooling, há uma falta de exposição a restrições do mundo real. Uma das coisas mais bonitas de ver crianças crescendo na Sudbury Valley, desde os quatro anos de idade em diante, é observá-las aprendendo como usar o sistema para satisfazer suas necessidades, como compreender as políticas e os relacionamentos na escola. É impressionante e maravilhoso ver uma criança de cinco ou dez anos descobrir: “Eu quero que a escola compre X; como eu consigo isso?” Ela irá até alguém para perguntar sobre a Assembleia Escolar. “O que eu faço? Como eu escrevo uma proposta? Você pode me ajudar?” Há poucas coisas mais emocionantes do que sentar numa Assembleia Escolar e ver três ou quatro crianças de sete anos aguentarem sentadas uma reunião de duas horas, quietas como ratinhos, até que seu tópico entre em discussão. Elas podem ser as crianças mais ativas da escola, mas elas irão ficar sentadas bem quietas, esperando chegar a vez de discutir a sua proposta. Elas sabem que devem levantar suas mãos e explicar o que querem e responder as perguntas. Esse tipo de aprendizado – como superar barreiras do mundo real, parte importante da vida adulta – [68] não se pode conseguir em qualquer ambiente de unschooling, pois você está negociando com seus pais, não com uma comunidade mais ampla e impessoal.

Eu acho, contudo, que o elemento-chave que nos diferencia do unschooling, motivo pelo qual toquei no assunto, é o problema inerente da hipersensibilidade sobre o qual eu já falei. A verdade é que, quando você está na presença de seus pais, você não pode evitar ser hipersensível às reações deles. Há tantas maneiras sutis que os pais têm de indicar o que realmente iria agradá-los, mesmo quando estão dizendo – e acreditando – que não se importam com o que você faz. “Tudo o que eu quero é que você seja feliz e que faça o que quiser.” “Bem, é isto que eu quero. Eu quero comprar uma bateria,” diz o filho de sete anos. Há somente aquele momento de hesitação parental, talvez, aquela pontinha de desaprovação – e a ilusão de livre escolha é destruída. O controle dos pais não é algo que você possa abandonar. Você não pode passá-lo para frente. Você não pode desistir dele voluntariamente.

Deixem-me resumir o que eu aprendi sobre o papel dos pais na escola. Ele é baseado em seu papel na vida. Antes de tudo, os pais estão envolvidos nas grandes decisões que têm a ver com a escola, do mesmo jeito que estão na vida. É parte do papel inevitável dos pais sobre o qual já falamos. Por exemplo, eles tomam a grande decisão de enviar seu filho para essa escola, em primeiro lugar. Não importa o [69] quanto digamos que depende da criança – e normalmente, até certo ponto, depende da criança – a verdade é que é uma decisão dos pais enviar o filho à escola. Os pais têm que descobrir um jeito de levantar o dinheiro. Os pais têm que mostrar que estão realmente por trás dessa decisão e querem ver acontecer. Para que essa decisão seja significativa, os pais têm que dar apoio real para a escola e para a ideia de a criança estar na escola, pois não faz sentido tomar a decisão de enviar a criança e não dar suporte. Assumimos todas as outras grandes decisões que fazemos por nossos filhos; por que não assumiríamos essa? Isso é algo muito essencial para os pais entenderem nessa escola. E é tão difícil de fazer, pois mandar a criança para essa escola é diferente de outras grandes decisões que tomamos, pois a grande decisão de mandar a criança para essa escola também envolve, para cada um dos pais, a grande decisão de permitir à criança participar de algo de que não participamos quando éramos crianças, que é estranho para nós. É isso que torna essa grande decisão tão difícil.

Se quisermos ser fiéis ao nosso papel como pais, temos que apoiar 100% essa grande decisão. Ela foi tomada por nós; agora temos que assumi-la. Se a tomarmos mas não a assumirmos, não podemos ficar surpresos se depois nossos filhos ficarem confusos, sem saber qual é a nossa posição, e não se beneficiarem da escola. Esse tipo de hesitação [70] dos pais eles sacam num minuto. E assumir a decisão significa, especialmente, que devemos apoiar as escolhas que nossos filhos fazem aqui. Nunca poderei reforçar isso o bastante. Tomar a decisão de mandar seu filho para essa escola envolve apoiar suas decisões enquanto ele estiver aqui. Se não somos capazes de fazer isso, não devemos mandá-lo pra cá. É difícil, pois implica em não erguer as sobrancelhas como provavelmente fizemos quando ouvimos que eles brincaram o dia todo ou conversaram o dia inteiro ou saíram na neve sem sapatos ou o que quer que seja. Nada de levantar sobrancelhas. Nada de “Que legal...” com uma pontinha de tensão na voz. É duro, mas é como deve ser se pretendemos apoiar aquela grande decisão.

A outra maneira pela qual os pais se envolvem nas grandes decisões é na Assembleia Geral. Nesse contexto, a Assembleia faz sentido. Faz sentido para os pais, algumas vezes por ano, se envolverem nas grandes questões. Os pais ajudam a definir o orçamento, e a anuidade, e várias outras grandes questões que têm a ver com a cultura da escola e como ela se desenvolve. Assim, a participação dos pais na Assembleia Geral realmente faz sentido dentro de um contexto mais amplo.

Isso, então, é o que eu aprendi ao longo dos últimos trinta anos. Acho que em 1968 tivemos sorte de descobrir o lugar certo para colocar os pais nessa escola. A Assembleia Geral acabou fazendo sentido – a [71] ideia de que os pais estão envolvidos nas grandes decisões, mas não nas incontáveis decisões diárias. Eles são membros da Assembleia Geral, não da Assembleia Escolar. Eles interferem nas grandes decisões da escola, mas não ficam tomando conta de seus filhos8 – uma combinação perfeita entre uma escola que fornece às crianças a experiência prática da independência e a parentalidade, cujo papel é facilitar sua jornada rumo à independência.

 

 

1A sala de costura é uma sala de convivência na Sudbury Valley School. (NT).

 

2Esse é um exemplo de um princípio ao qual fui apresentado por um grande amigo na pós-graduação, muitos anos atrás. Ele costumava dizer: “Se você tem um problema que não consegue resolver, um que seja mesmo intratável, mude para um problema maior que englobe o seu problema. Muitas vezes, você descobrirá que a solução para o problema maior é mais fácil do que a solução para aquele em que você estava se concentrando no início, e então o problema original irá se resolver sozinho.”

 

3Um biscoito doce recheado pré-cozido, bastante popular nos EUA. (NT).

 

4A expressão original em inglês é “You made your bed, you sleep in it.” Além da tradução que está no texto, ela também pode ser lida como “Sua alma, sua palma”, ou “Quem pariu Mateus, que o embale”. (NT).

 

5A expressão original em inglês é “walk through hellfire”, que literalmente significa “atravessar o fogo do inferno”. (NT).

 

6Ensino doméstico, prática regulamentada e bastante comum nos EUA em que se ensinam os conteúdos escolares em casa, com controle regular de alguma instituição escolar formal. (NT).

 

7“Desescolarizados”, em português. Modelo de educação não-escolar bastante diversificado, mas que tem em comum práticas educacionais que buscam fugir do modelo escolar convencional, e que normalmente são dirigidas pelos pais. (NT).

 

8A expressão original em inglês é “look over their children's shoulders”, que literalmente é “olhar por sobre os ombros dos filhos”, e significa cuidar para que nada de perigoso aconteça a eles. (NT).

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