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Por que um currículo é contraprodutivo

December 13, 2014

Imagem: Sudbury Valley School Photo Gallery

 

Por que um currículo é contraprodutivo1

 

Hanna Greenberg

 

Tradução por Luís Gustavo Guadalupe Silveira

 

Frequentemente, pais, educadores e até mesmo os estudantes nos perguntam porque somos tão inflexíveis sobre não oferecer aulas na SVS e por que nós só damos aulas em resposta às iniciativas dos estudantes. Imaginam o porquê de nós não oferecermos alguns temas “básicos” e assim acalmar a ansiedade das pessoas e também melhorar a imagem da escola. Apesar de termos várias razões teóricas e práticas para nossa atitude, é difícil nos explicar de modo a aliviar os medos das pessoas de que nossos estudantes não conseguirão a educação que necessitam para se tornar adultos bem-sucedidos em nossa sociedade.

Semana passada, eu tive uma conversa com um estudante que irei chamar de A., que lançou nova luz sobre esse assunto para mim. Estávamos conversando sobre passar um tempo sozinho no bosque. A. me contou que nunca se sentiu sozinho lá, ao contrário, sentia que sua mente estava cheia de pensamentos que considerava interessantes e satisfatórios. Ele continuou me contando que, ainda que amasse ouvir música, ultimamente ele percebeu que a música expressava as ideias e pensamentos dos compositores. Os pensamentos eram deles, não seus. Ao ouvir música o tempo todo, ele sentia que estava se privando de seus próprios pensamentos. Agora ele ouve música com menos frequência, só quando está afim, mas não para ocupar o tempo. Ele precisa de silêncio para se encontrar a si mesmo e acha que a música o distrai.

Demorou alguns dias para que eu compreendesse o que A. havia me dito e então minha ficha caiu. É exatamente o que falamos na SVS quando dizemos aos nossos estudantes que se responsabilizem pelo uso de seu tempo e pelo seu aprendizado. Não queremos encher suas mentes com nossos pensamentos. Queremos garantir que eles sejam livres para usar suas mentes para pensar seus próprios pensamentos. Isso não nos impede de responder perguntas e falar nossas opiniões quando nos pedem e de estar disponíveis para conversar. Mas significa que nós evitamos lhes oferecer um currículo para seguir.

As mentes das crianças não são ocas ou vazias. Elas estão ocupadas o tempo todo assimilando o mundo ao seu redor e tentando extrair sentido do que veem. Quando nós adultos tentamos interferir nesse processo natural e assumir o controle de suas mentes com nossa própria sabedoria, corremos o sério risco de interferir com seus próprios processos mentais. Isso pode resultar em um ganho de conhecimento real, mas com prejuízo de sua habilidade de pensar por si próprias e de ser originais e criativas. Fico espantada que as qualidades que apreciamos em nós mesmos e em nossos amigos – sermos interessantes, perspicazes, criativos e independentes – é o que desejamos sacrificar nas crianças em troca da aquisição de um conhecimento que alguns de nós julgamos ser necessário aprender. Nós adultos precisamos ter mais confiança na habilidade de nossas crianças em descobrir como se preparar para serem bem-sucedidas nesse mundo.

Outra coisa que é importante para mim é a questão do tempo – o que consideramos ser um bom uso dele e quando ele está sendo desperdiçado. Seu tempo nessa terra é a sua vida. Quando alguém toma um pouco de seu tempo, está tomando uma parte da sua vida. Devemos ser muito cuidadosos ao tomar posse do tempo dos outros. Fazemos isso às crianças o tempo todo, pensando conosco mesmos que por serem mais jovens seu tempo não é tão precioso quanto o nosso. Mas, na verdade, cada minuto em que você ocupa uma criança com suas próprias coisas é um minuto a menos que ela tem para usar como quiser. Você está distraindo-a de sua própria vida. Isso não somente é uma invasão de privacidade e um desrespeito, mas também é um grande desperdício. Quanto mais jovem a mente, melhor ela é em adquirir conhecimento. Por isso, interferir nos processos naturais das crianças enquanto elas estão se esforçando para compreender a si mesmas e ao mundo é ainda mais perigoso para elas do que para os adultos.

Acredito que a aquisição de alguns fatos, habilidades etc. não vale a distração do processo por meio do qual cada criança trilha seu próprio caminho. A tarefa do adulto é responder questões quando perguntados, fornecer as ferramentas e as oportunidades quando solicitados e dar espaço e deixar as crianças fazerem seu próprio trabalho sozinhas. Devemos ser muito cuidadosos para não preencher as mentes de nossas crianças com nosso conhecimento; ao contrário, devemos permitir que elas encontrem seu próprio conhecimento. Sabemos que não estaremos por perto para guiá-las por toda sua vida, então devemos permitir que elas desenvolvam as ferramentas que precisam para se tornar suas próprias guias. E isso é feito quando se deixa as crianças pelejarem e descobrirem as coisas por conta própria e estando à disposição para oferecer ajuda quando elas pedirem.

Talvez uma história Zen bastante conhecida possa expressar melhor o que eu quero dizer:

 

Um mestre Zen japonês recebeu um professor universitário que veio investigar o Zen. Era óbvio para o mestre, desde o começo da conversa, que o professor não estava tão interessado assim em aprender sobre o Zen, mas sim em impressionar o mestre com suas opiniões e seu conhecimento. O mestre ouvir pacientemente e finalmente sugeriu que tomassem chá. O mestre serviu a xícara do visitante até derramar e continuou servindo. O professor ficou vendo a xícara transbordar até que não conseguiu mais se conter.

“A xícara está transbordando, não cabe mais nada.”

“Como esta xícara,” falou o mestre, “você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como eu posso ensinar-lhe o Zen sem que antes você esvazie sua xícara?”

 

O que eu aprendi nessa história é que, como membro da equipe da Sudbury Valley, eu tenho que cuidar para não encher as “xícaras” dos estudantes com minha opinião e meu conhecimento. Eles devem enchê-las sozinhos e eu tenho que respeitá-los e confiar que eles irão encher suas “xícaras” com sabedoria.

 

 

 

1GREENBERG, Hanna. Why a Curriculum is Counterproductive. In: GREENBERG, Daniel; SADOFSKY, Mimsy (ed). Reflections on the Sudbury School Concept. Framinghan: The Sudbury Valley School Press, 1999. p. 194-197.

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